Era uma vez... 


@ A ROSA DE JERICÓ

lualuaInstantes mágicos onde as areias da ampulheta do tempo começam a voltar, e os anos passados se fazem presentes.
Estamos na cidade de Homs na Síria há aproximadamente 100 anos atrás, presenciando uma cena que já foi esquecida há muito tempo.
Era uma noite estrelada e quente, e a lua estava em seu plenilúnio, quando Nassrala Namur, chamou seu filho Abdul Latif que estava aniversariando.
- Abdul, meu filho! - Hoje é um dia muito especial, pois você está completando 11 anos e pela tradição de nossos ancestrais, o filho mais velho do casal ou a filha mais nova, deve receber a honra de ser o portador da Rosa de Jericó.
Nesse momento, Nassrala abriu uma caixa feita de madeira de Angelim, e dentro dela estava algo que Abdul jamais havia visto e com certeza a maioria de nós também não. O formato era semelhante a um botão de rosa, mas de tamanho bem maior, chegando quase a proporção de um punho fechado. No lugar das pétalas ela possuía ramos secos contorcidos para o centro.
Nassrala continuou:
- Quando você sentir que é necessário despertar a rosa de seu sono, basta colocá-la..., e ele explicou para Abdul o segredo centenário do que ele deveria fazer para isso.
Voltando agora lentamente para o nosso tempo, podemos observar um breve momento de passagem da Rosa de Jericó para a filha mais nova de Abdul aqui mesmo no Brasil, e um outro momento onde ela passa para o seu filho mais velho, que é o seu portador até os dias de hoje.
Estamos no mês de Dezembro! O ambiente e os sentimentos de todos, estão envolvidos pela Magia de Natal em praticamente todos os reinos da terra, e... vamos ver que mais além do que imaginamos.
Era noite na Floresta dos Cedros, e uma bruma de frio começava a encobrir a base das árvores, escondendo a Vila dos Gnomos dos olhos do mundo. Todos estavam dormindo, mas olhando na direção da árvore mais alta, podíamos ver uma janelinha com a luz acesa. Era a casa do Gnomo Thyghorbob, que morava sozinho.
Ele era um dos gnomos mais fortes da vila, mas nem todos gostavam dele, o que talvez o tenha motivado a ser o único gnomo a morar distante.
Existem muitas histórias sobre a sua origem..., e uma delas dizia que ele nem era um gnomo de verdade. Não usava a tradicional "barba dos gnomos" e, além disso, portava sempre um machado com as letras "ZL" entalhadas no metal. Nunca ninguém soube o significado dessas letras.
Bem, até onde eu sei, ele chegou sozinho na vila, há muitos anos atrás. Nunca foi muito de falar, e seu rosto era sério mas reservava um sorriso mágico para poucos.
Apesar de todas as fofocas e conversas maldosas sobre ele, a sua aparente seriedade os fascinava, e talvez eles o temessem por isso. Mas creio que secretamente, alguns quisessem mesmo era ser como ele.
O Gnomo Théryck era famoso por gostar de aprontar na vila. Ele detestava a rotina e não seguia fielmente as tradições, o que o fez se interessar pela forma singular de Thyghorbob.
Ele nem sabia bem porque estava com tanto interesse por ele, mas os gnomos valorizam muito mais a intuição do que a razão; e com o passar do tempo, os dois foram se tornando grandes amigos.
Théryck descobriu a sensibilidade que existia sob aquela "armadura de sério" e encontrou alguém com quem conversar sobre assuntos mágicos, místicos, origem da vida e outros mais, que a maioria não se interessava.
Thyghorbob tinha uma qualidade que às vezes não é muito valorizada, mas que é de extrema importância em uma amizade: a atenção e a sensibilidade de ouvir. Pois quando alguém vinha lhe contar algo, ou precisava dele, ele parava o que estivesse fazendo para que a pessoa realmente se sentisse única e importante naquele momento.
Bem, mas vamos voltar àquela noite... Todos dormiam profundamente em suas casas, exceto Thyghorbob, que não costumava dormir cedo.
De repente ele percebeu um silêncio incomum na floresta. Mesmo à noite sempre se ouve o som de grilos, corujas e outros seres, que mesmo não físicos, preferem viver longe dos olhos do sol, mas até eles pareciam ter silenciado.
Thyghorbob olhou pela janela e viu uma sombra estranha, sem forma definida que mergulhou sorrateiramente na bruma indo na direção do centro da vila.
No mesmo momento ele desceu rapidamente de sua árvore para saber se estava tudo bem.
Apesar do tratamento e dos comentários, no fundo ele se preocupava com todos e sabia que a Vila dos Gnomos era o lar que ele nunca tinha tido.
Chegando na casa de Théryck ele se tranqüilizou em ver que estava tudo bem com ele. Thyghorbob contou o que ele havia visto, e sem pensarem muito, ambos resolveram percorrer a vila à procura de algo estranho.
Na verdade com aquele silêncio tudo parecia estranho, e apesar da decoração de Natal que já ornamentava toda a cidade, eles sentiam um "peso no ar"...
Depois de muito tempo andando, não encontraram nada e voltaram para suas casas, sem saber o que esperava a todos no amanhecer daquele dia.
Longe dali, como acontecia todos os anos, os 11 moradores da Rua Alfazema, uma rua sem saída, se uniam para fazer a decoração de Natal que era muitas vezes até visitada por outras pessoas do bairro. Nesse ano um dos moradores precisou se mudar e uma das casas estava vazia há alguns meses.
Ricardo morava ao lado dessa casa, e estava ansioso para saber quem seria seu novo vizinho, já que tinha percebido que a placa de "Vende-se" havia sido removida no dia anterior.
Na manhã do dia 06 de Dezembro, quando muitos comemoravam a chegada do Papai Noel, chegou o novo morador. Todos ficaram observando curiosos, quando o caminhão de mudanças parou em frente à casa.
Ricardo saiu logo lá fora e se apresentou, mas já percebeu que seu novo vizinho não gostava muito de conversar. Só conseguiu descobrir que ele se chamava Roberto Queiroz.
Logo após a mudança, Adriana e Letícia, duas grandes amigas e moradoras da rua, resolveram reunir todos, para visitarem o novo vizinho e lhes dar as boas-vindas. Os moradores dessa rua pareciam uma grande família.
Roberto os recebeu de forma cortês, mas sempre mantendo certa distância em relação a expressar seus sentimentos ou deixar transparecer o seu entusiasmo. Ele era muito reservado e observador.
Como era a única casa da rua que ainda não estava decorada, eles perguntaram se ele gostaria de participar da decoração e da Festa de Natal com todos.
- Bem, eu agradeço muito, mas não acredito nessa estória de Natal, e nem costumo festejar essa data. Moro sozinho há alguns anos e prefiro ficar assim..., se não se importam.
Todos ficaram um pouco decepcionados, mas respeitaram, pelo menos na frente dele, a sua decisão.
Ricardo estava presente e sentiu muito em ouvir isso, mas mesmo assim ele não desistiu em manter contato com o Roberto. Ele respeitava as diferenças de cada um e procurava aprender com elas.
Enquanto isso amanheceu na Floresta dos Cedros, e aos poucos, mais e mais gnomos se reuniam na praça central, olhando perplexos para o "Carvalho do Céu", a árvore símbolo da vila.
Aparentemente ele estava morrendo, pois pouco a pouco eles viam suas folhas secarem e caírem lentamente. Ele já estava todo decorado para o Natal e a festa sempre era feita ao redor dele. Os gnomos o consideravam como um velho amigo que participava silenciosamente da vida de todos.
Thyghorbob e Théryck chegaram praticamente juntos, e agora tinham certeza de ter encontrado o que havia de estranho na noite anterior.
Enquanto todos olhavam sem saber bem o que fazer, uma criança se aproximou e percebeu algo que ninguém havia notado:
- Papai, olhe! - A árvore não faz sombra no chão. - disse o pequeno gnomo.
Todos ficaram tensos com aquela situação desconhecida, e nem mesmo os gnomos mais sábios sabiam o que fazer.
Siltzer a gnoma mais velha, se aproximava lentamente daquele tumulto. Andava sempre apoiada em sua bengala que havia sido entalhada de um dos galhos do Carvalho do Céu. Ao passar perto de Thyghorbob, murmurou:
- Se quiser salvar a vila, me procure após o pôr do sol.
Logo depois...
- O que ela disse? - perguntou Théryck curioso.
- Parece que ela sabe de alguma forma de ajudar. - disse ele sem muito entusiasmo.
Thyghorbob sempre procurou fazer tudo sozinho e não gostava muito de depender ou pedir algum favor para alguém, mas nesse momento parecia que somente a sabedoria antiga da gnoma, poderia salvar a vila.
No final da tarde, os dois resolveram ir até a casa dela, mas ainda faltavam 2 horas para o pôr do sol. Mesmo assim eles bateram na porta e ouviram passos se aproximando. A porta não abriu, como era esperado, mas ouviram a voz dela dizendo:
- Esperem o pôr do sol!
Thyghorbob estava impaciente e pensou em perder a calma enquanto já empunhava seu machado, mas foi desencorajado quando viu Théryck tranqüilamente subindo em uma das cerejeiras que ficava na frente da casa de Siltzer.
Os dois se sentaram no chão e aproveitaram para conversar e comer as deliciosas cerejas que estavam maduras e doces, enquanto o tempo passava rapidamente.
Logo eles ouviram o ranger da porta e Siltzer os convidou gentilmente para entrar. Era uma cabana muito pequena, mas bem aconchegante e o aroma de Olíbano predominava no ar.

Thyghorbob vivia sempre fechado em seus sentimentos, o que não o deixava muito a vontade nesse momento, pois Siltzer lhe trazia muitas lembranças de sua mãe que já havia falecido.
A gnoma percebendo o desconforto do gnomo, disse:
- Você não se sente bem aqui, não é?
Ele se surpreendeu um pouco com a percepção dela e se sentiu vulnerável com a possibilidade de ela estar ouvindo seus pensamentos.
- Na verdade eu estou preocupado em poder salvar o Carvalho do Céu!. - disse ele secamente. - e estou aqui somente porque a senhora disse ter alguma informação que possa nos ajudar.
Théryck olhou desapontado para ele, enquanto balançava a cabeça em sinal de desaprovação pela atitude grosseira do amigo.
Siltzer era muito meiga com todos, e compreendeu bem o sentimento de Thyghorbob:
- É importante caminharmos pela vida com nossos próprios esforços, mas também é importante aceitarmos a ajuda de alguém, quando precisamos. Ela tocou gentilmente em seu rosto e isso abalou um pouco a sua frieza emocional. Mesmo assim, ele se conteve:
- Me desculpe, Siltzer. - O que podemos fazer então para salvar o Carvalho?
Siltzer suspirou e disse:
- Creio que ele infelizmente está sendo atacado por um Trunon.
- Trunon? - O que é isso? - perguntou Théryck curioso, antes mesmo que Thyghorbob conseguisse dizer o mesmo.
- Tudo o que se sabe sobre eles está envolto em lendas e histórias antigas, mas vou contar o que eu sei...
Há muitos e muitos anos atrás, no tempo dos Patriarcas, os Trunons eram seres que viviam em grandes cidades e eram encontrados em
quase todos os lugares do planeta. Sempre foram pacíficos, mas muito ambiciosos pelo poder.
Não se sabe bem o que aconteceu, mas alguns dizem que pode ter sido pela sua ganância, o que os levou a se unirem com o objetivo de derrotar o Patriarca que era o guardião naqueles tempos.
Dessa união de forças, misteriosamente os Trunons passaram a ter o poder da metamorfose, o que os tornou quase indestrutíveis.
No início o Patriarca não tomou nenhuma atitude ofensiva, o que prolongou a batalha por gerações. Mas os tempos foram passando e certo dia quando a situação já estava no limite suportável por todos, e vendo que a tolerância e os esforços eram inúteis, o Patriarca lançou uma magia sobre os Trunons que quase os extinguiu para sempre.
Metade deles desapareceu sem que ninguém soubesse para onde foram enviados, e a outra metade perdeu a capacidade de falar e seus corpos não produziam mais sombra. Com isso todos poderiam reconhecê-los. Infelizmente o poder da metamorfose não conseguiu ser anulado e os acompanha até hoje.
Poucos são os que já ouviram falar em Trunons. Eles se isolaram do contato com os outros e vagam seguindo interesses desconhecidos. -
Pelo visto um desses chegou na nossa vila e agora precisamos descobrir uma forma de detê-lo antes que ele acabe com a vida sagrada do Carvalho do Céu.
- Nossa! - Que história! - disse Théryck impressionado.
Siltzer se levantou e caminhou até uma estante empoeirada que havia na sala. Pegou um livro muito antigo, mas que parecia ser usado mais do que os outros, pois era o único que não tinha poeira acumulada pelo tempo.
Ela abriu o livro e Thyghorbob e Théryck se aproximaram enquanto observavam em silêncio.
- Houve um tempo em que a Vila de Hayrens, que já não existe mais nos nossos dias, foi atacada por Trunons e depois de muitos anos descobriram que somente o poder da Anastatica Hierochuntica, poderia afastá-los.
- Anastat... o quê? - disse Théryck curioso, contendo um riso. - O que é isso?
- Uma planta antiga que tem o poder sagrado da ressurreição. Ela também é conhecida em alguns lugares como a Lendária Rosa de Jericó.
- Mas onde podemos encontrar essa rosa? - perguntou Thyghorbob.
- Elas são muito raras, mas alguns seres humanos as têm guardado por gerações, como uma tradição de família, e uma forma de trazer boa sorte para os portadores. - O nosso desafio agora é encontrar um humano de confiança que a possua, e que possa nos emprestar. - Infelizmente a história tem mostrado que a maioria deles prefere nos aprisionar a nos ajudar.
- Hummmm... disse Théryck meio desanimado. - Então vamos ficar só olhando o fim do Carvalho do Céu?
Thyghorbob também balançou a cabeça, enquanto desviava o seu olhar para baixo.
O som do bater na porta despertou todos desse momento de aparente falta de esperança.
- Esperem um pouco que eu vou atender. - disse Siltzer.
- Quando ela abriu a porta ficou sem palavras, assim como os dois gnomos, pois eles estavam recebendo a presença de Veynar. Normalmente ele só aparece na noite de Natal trazendo os presentes para os gnomos, e para nós humanos também. Talvez o nome "Papai Noel", seja mais conhecido.
Todos se curvaram em sinal de respeito, menos Siltzer que pela idade já não podia fazê-lo, mas Veynar era muito alegre e deixou todos descontraídos com a sua presença e suas palavras de confiança.
- Boa noite, Siltzer, Théryck e Thyghorbob! - Eu sei que a minha presença aqui é realmente uma surpresa, já que essa não é a Noite de Natal, mas parece que vocês estão precisando de uma ajuda para encontrar um humano que possa ajudá-los nessa busca da Rosa de Jericó. - Estou certo? - disse ele dando uma piscada com os olhos, enquanto sorria confiante.
Todos ficaram entusiasmados, pois agora tinham certeza de que conseguiriam.
- Quando podemos partir? - disse Thyghorbob ansioso, enquanto já balançava seu machado.
- Agora mesmo! - disse Veynar. - Segurem em minhas mãos que eu os levarei.
Nesse momento Veynar e os dois gnomos desapareceram diante dos olhos de Siltzer.
Roberto havia acabado de tomar um banho relaxante e planejava passar o restante da noite, sentado em sua confortável poltrona, na frente da lareira. Apesar do calor típico do mês de Dezembro no Brasil, era uma noite um pouco fria e ele aproveitou para acender a lareira e relaxar, mas o destino havia reservado algo um pouco diferente, não somente para ele, pois assim que ele entrou na sala, encontrou sobre sua poltrona, dois gnomos que quando o viram chegando, pareciam estar tão assustados e surpresos quanto ele.
- Onde está Veynar? - disse Théryck assustado.
- Acho que ele só nos deixou aqui, mas vamos manter a calma e tentar conversar com esse humano.
Roberto não acreditava em praticamente nada, até esse momento. Estava surpreso e se aproximou com certo receio daqueles pequenos seres com 15 cm de altura com chapéus cônicos vermelhos.
- Quem ou o que são vocês? - e o que fazem na minha casa?
- Bem, somos gnomos! - Meu nome é Théryck e esse é meu amigo Thyghorbob. - Estamos procurando a Anastácia Aerochutica. Ops..., não é nada disso, acho que não era esse o nome da planta. - Como era mesmo, Thyghorbob?
- O nome é Anastatica Hierochuntica. - É uma planta que nós precisamos para salvar o Carvalho do Céu que está sendo atacado por um Trunon.
Roberto começou a pensar se estava sonhando acordado, pois ele não sabia absolutamente nada do que eles diziam, e para falar a verdade, eles nem deveriam existir.
Nesse momento começou uma conversa entre eles, que durou algumas horas, até que os gnomos conseguissem explicar o motivo da sua vinda e Roberto se convencesse de que eles realmente existiam.
- Mas, eu não tenho e nem conheço essa planta que vocês vieram procurar. - Será que vocês não estão na casa errada?
Os dois gnomos olharam um pouco decepcionados, sem saber o que dizer...
Roberto lembrou do vizinho Ricardo, que sempre lhe contava sobre essas coisas mágicas. Ele sempre dava atenção para todas elas, mas não acreditava em absolutamente nada daquilo.
- Meu vizinho conhece um pouco mais desses assuntos, e se vocês quiserem podemos ir até a casa dele!
Os dois gnomos ficaram animados, e quando Roberto colocou seu casaco, Théryck já pulou dentro de um dos bolsos.
- Venha logo, Thyghorbob!
- Eu vou andando! - disse ele.
Roberto não sabia bem o porquê, mas parecia conhecer a forma de ser daquele gnomo ranzinza. Mesmo assim pegou-o e colocou dentro do outro bolso, enquanto foi ouvindo as reclamações dele pelo caminho todo.
A casa de Ricardo ainda estava com a luz acesa. Roberto bateu na porta e ficou pensando: - Nossa! - Apesar de ter recebido muitos convites, é a primeira vez que eu venho na casa dele, e além de tudo ainda trago dois gnomos em meus bolsos que estão procurando uma planta estranha... Não acredito nisso!
A porta se abriu e Rita, esposa do Ricardo veio atendê-los. Ela era muito bonita, atenciosa, e logo o fez entrar.
Ricardo nem podia acreditar em ver o vizinho em sua casa.
- Que surpresa boa, Roberto! - Estou muito contente que você tenha vindo.
- Na verdade eu estou precisando da sua ajuda. - nem mesmo Roberto acreditava que tinha dito isso, mas era verdade.
- O que aconteceu? - perguntou Ricardo curioso.
Nesse momento Roberto abriu os bolsos de seu casaco e dois chapéus vermelhos e pontudos apareceram.
- Podem sair, esse é o amigo..., bem... esse é o Ricardo e a sua esposa Rita. - Agora podem contar para eles o que vocês vieram fazer aqui.
Ricardo e sua esposa ficaram alguns instantes sem conseguir falar, mas logo disseram juntos:
- Gnomos de verdade! - não pode ser!
Os dois se aproximaram e começaram a fazer muitas perguntas enquanto os gnomos tentavam responder e esclarecer o que eles vieram procurar... Chegou o momento em que Théryck disse:
-... Nossa missão aqui é encontrar a... - ah... Diga você Thyghorbob, eu nunca lembro mesmo o nome dessa planta.
- Anastatica Hierochuntica.
Ricardo olhou surpreso para eles, e seu olhar se tornou sério, quando ele inspirou, e disse:
- A Rosa de Jericó?
- Então é você! - disseram acho que todos, pois nesse momento eu mesmo nem reparei quem havia dito isso.
Ricardo contou sobre a tradição de sua família na Síria e a importância dessa planta mágica.
- Você pode nos emprestar a rosa? - perguntou Théryck ansioso.
Ricardo saiu da sala e quando voltou, carregava uma caixa de formato incomum.
Quando ele a abriu:
- Está aqui, essa é a Rosa de Jericó! - mas, ao invés de emprestá-la eu gostaria de dá-la a vocês. - Pela tradição de meus antepassados, eu deveria passar para um de meus descendentes. Como eu não tenho filhos, creio que vocês realmente merecem ficar com ela. - Aceitem como meu presente de Natal.
Os gnomos se sentiram honrados e impressionados com a nobreza da atitude e agradeceram muito.
Roberto por alguns instantes se perdeu em seus pensamentos... A vivência do contato com a magia era uma experiência nova na sua vida. Ele não sabia bem o que pensar sobre tudo isso.
De repente, Rita perguntou de forma inocente:
- Como vocês pretendem voltar?
- Ops, é verdade. - disse Théryck. - Sabe que nós não sabemos como vamos voltar sozinhos. - Viemos com Veynar como havíamos contado.
- "Viemos com Veynar" não! - ele que nos deixou aqui. - comentou ironicamente Thyghorbob. - e agora?
Enquanto isso, Ricardo entregou a Rosa de Jericó para Thyghorbob, e quando ele a tocou, os dois gnomos desapareceram magicamente.
- Sumiram! - disse Ricardo. - Espero que eles consigam!
- Eu também espero - disse Roberto pensativo.
- Será que vamos vê-los novamente? - disse Rita saudosa. - Eles são tão bonitinhos!
- Espero que sim, pois eu gostaria de conversar mais tempo com eles. - disse Ricardo, pensativo, enquanto olhava para onde eles estavam antes de desaparecerem.
Os dois gnomos voltaram para a casa de Siltzer, na companhia de Veynar e..., com a Rosa de Jericó.
Siltzer ficou muito feliz, e Théryck e Thyghorbob já estavam saindo para salvar o Carvalho do Céu, quando a gnoma perguntou?
- Vocês sabem o que vão fazer com a Rosa de Jericó?
- Hummm...., acho que esquecemos disso... - disse Théryck envergonhado.
Thyghorbob nem comentou nada.
A gnoma explicou o que eles deveriam fazer e os dois partiram rapidamente.
Já era a noite de 24 de Dezembro e todos continuavam formando uma roda em torno do Carvalho do Céu, como forma de tentar salvá-lo com suas presenças e suas forças.
A maioria de suas folhas já havia caído e só se podiam ver os enfeites de Natal, que agora nem pareciam ter mais significado.
Quando eles viram Théryck e Thyghorbob se aproximarem correndo, todos se afastaram sem fazer perguntas, na esperança que eles conhecessem alguma forma de "cura".
Colocaram a Rosa de Jericó, perto do tronco do Carvalho, e jogaram um pouco de água sobre ela. Ah..., esse era o segredo simples, mas único, para fazer a rosa renascer novamente e despertar o seu poder.
O silêncio era grande..., enquanto todos esperavam acontecer algum milagre, quando..., de repente a Rosa começou a abrir lentamente, como se estivesse despertando de um sono profundo, enquanto a cor verde de seus ramos anunciava a volta à vida.
Uma luminosidade começou a emanar da rosa, e aos poucos foi envolvendo o Carvalho totalmente. Eles ouviram um som estranho que eu espero não ouvir novamente, e uma sombra abandonou a árvore.
O carvalho do Céu estava salvo!
Bem longe dali, as famílias da Rua Alfazema haviam montado uma Árvore de Natal, bem no centro de uma pequena praça circular que fazia frente para todas as casas da rua. Aos poucos os moradores começavam a se reunir para a grande Noite de Natal.
Um pequeno coral com 7 crianças: filhos e filhas dos moradores, já estavam prontos para cantar algumas canções de Natal, enquanto Vinícius se preparava para tocar seu violão. Fazia 3 anos que ele tocava, e a cada ano ele se destacava mais não somente nas Festas de Natal.
Ele ia começar a tocar, quando Adriana e Letícia perceberam a falta de Ricardo que estranhamente ainda não estava lá.
De repente, uma surpresa para todos, a casa de Roberto que era a única que ainda não estava decorada para o Natal, se acendeu mostrando mais luzes do que se podia imaginar.
Enquanto todos olhavam contentes, Roberto, Ricardo e Rita se aproximavam, em meio a aplausos e muita alegria pela presença inesperada do Roberto.

Algumas cadeiras foram colocadas e todos estavam sentados, quando num momento de silêncio, Vinícius começou a tocar.
Ele não tocava só o violão, ele tinha o dom de expressar os sentimentos através das notas musicais, fazendo com que as músicas de Natal falassem o idioma do coração. O momento era mágico e todos se renderam à emoção do Natal.
Durante a ceia, de repente as luzes da casa do Roberto se apagaram.
- Roberto, olhe a sua casa! - disse Ricardo.
- Nossa, deve ser algum problema elétrico. - Vou lá ver o que aconteceu e volto logo.
- Eu também vou! - disse Ricardo já seguindo o amigo.
Enquanto isso a Rita ficou conversando com a Juliana. Ela era sua vizinha e parecia muito interessada em saber mais sobre o Roberto.
Quando chegaram na casa, realmente estava tudo apagado, exceto duas velas acesas em cada um dos lados da porta, que estava aberta.
Eles estranharam a situação, mas quando subiram o primeiro degrau viram aparecer do meio da escuridão dois chapéus vermelhos, e depois os rostos de Théryck e Thyghorbob.
- Uebaaaaaaaa..., que surpresa boa! - disse Ricardo.
- Então foram vocês que apagaram as luzes? - perguntou Roberto.
- Precisávamos chamar a atenção de vocês, aí resolvemos...
Thyghorbob mostrou o fusível da caixa de eletricidade que ele havia removido.
Ricardo e Roberto estavam curiosos para saber sobre o Carvalho do Céu, e os gnomos contaram sobre a vitória no confronto com o Trunon.
Por um momento o assunto pareceu terminar, mas os dois gnomos estavam escondendo algo em suas expressões...
- O que está acontecendo? - perguntou Roberto sentindo que havia algo errado.
Eles ouviram passos vindos de dentro da casa, e logo apareceu sob a pouca luz das velas, alguém bem maior do que os gnomos...
- Ricardo e Roberto, eu gostaria de lhes apresentar Veynar, ou o Papai Noel, como vocês o conhecem... - disse Théryck fazendo uma reverência.
- Feliz Natal, meus amigos! - Eu estou aqui para agradecer pela atitude de vocês em receber os gnomos, e a confiança e honra em lhes dar a posse da Rosa de Jericó. - Essa atitude não poderia ficar sem um reconhecimento. - Muito obrigado mesmo!
Ambos estavam sem palavras e lisonjeados, mas mesmo assim conseguiram expressar sua gratidão:
- Papai Noel, nem sei o que dizer, mas esse momento é o melhor presente de Natal que eu poderia sonhar na vida. - Muito obrigado! - disse Ricardo emocionado.
- Veynar..., para mim é um momento muito forte e um pouco difícil, pois com o passar do tempo deixei de acreditar no Natal e para falar a verdade nunca acreditei em Papai Noel e muito menos em gnomos. - disse ele enquanto olhava para os pequeninos e sorria. - Desde o começo, eu não sabia bem porque os gnomos foram me procurar primeiro, mas agora eu sinto o quanto tudo isso mudou minha vida, e acredito que talvez não tenha sido um acaso.
Veynar sorriu e se aproximou...
- Roberto! - Às vezes somos mais especiais do que imaginamos, e o inesperado é sempre mais mágico. - Você tem uma sensibilidade muito grande para ouvir e dar atenção àqueles que o procuram. - Esse dom faz com que cada um se sinta realmente importante e único naquele momento. - Talvez essa seja uma das qualidades mais procuradas e mais raras nos dias de hoje, em que todos alegam não terem tempo para ninguém, e nem para si mesmos. - Vejo a maioria pensando em seus futuros e esquecendo de seus presentes.
- Obrigado Pa-pai Noel. - disse Roberto enquanto o abraçava e se rendia à magia e a verdade das palavras de Veynar.
- O senhor não poderia ficar para a nossa festa de Natal? - Seria uma honra para todos, conhecerem o verdadeiro Papai Noel. - sugeriu Ricardo.
Veynar pensou um pouco e quando olhou para a festa já viu alguém vestido de Papai Noel e disse:
- Preciso continuar a entrega dos presentes e os gnomos precisam voltar para suas casas. - Agradeço muito mesmo, mas vamos indo...
Eles se despediram e foram embora desaparecendo magicamente.
Roberto reacendeu as luzes e ambos voltaram para a festa.
Chegando lá, se reuniram com a Rita e a Juliana, e começaram a contar tudo o que tinha acontecido.
Vinícius estava conversando, quando apareceu sobre o seu violão um envelope vermelho com seu nome escrito. Ele o abriu e havia um papel em branco, mas..., de repente, uma frase apareceu escrita: "Toque mais uma."
Ele sentiu uma sensação mágica. Pegou seu violão e começou a tocar. A atenção de todos se voltou para ele, e logo suas primeiras notas musicais, trouxeram do céu pequenos flocos de neve.
Foram poucos instantes, mas revelaram a certeza de que a Magia de Natal existe e existirá para sempre.

Gostaria de agradecer a minha esposa Rita Aubim pelo amor , carinho e apoio para escrever esse
Conto de Natal , e ao meu amigo Roberto Queiroz, que com sua personalidade e amizade sincera me
motivaram a homenageá-lo.


ROSA DE JERICÓ (ANASTATICA, A. HIEROCHUNTICA)
Anastática, do grego -anastasis- ressurreição.
Hierochúntica, do grego -hiero- sagrado.
A planta Sagrada da Ressurreição.
Espécie única, cujas ramas tem a propriedade de contrair-se com a secura, permanecendo fechadas e secas durante muitos anos, até que a umidade ou o contato com a água voltem a abrí-las, recobrando sua frescura, beleza e cor.
Oriundas do Afeganistão, proliferam nos desertos da Arábia, Egito, Palestina e margens do Mar Vermelho.





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(Última atualização em 23/12/2006).


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by Leandro Amaral e Ricardo Namur
Ilustrações em aquarela: Sérgio Ramos