A arca de Noé

   
             
   

      Seu Alcindo ajeitava com certa dificuldade seus novos óculos para ler seu jornal favorito quando lhe chega o neto a perguntar com aquele ar de curioso:

      - Vô, o que é um naturalista?

      - Naturalista, filho, é uma pessoa que observa a  Natureza. O naturalista arranja sempre um jeito de salvar bichos e plantas. Toda vez que alguém percebe que eles estão ameaçados por alguma coisa, pode ser uma doença, algum acidente ou mesmo pelo homem, são essas pessoas que correm para salvá-los. O naturalista também estuda os fenômenos da Natureza para melhor compreender o que acontece com as espécies vivas.

      - Sempre houve pessoas assim, não é?

      - Infelizmente, não. Ao longo dos séculos, o homem tem considerado a Natureza como um vasto lugar de recursos infinitos. Nunca pensou que as espécies poderiam se acabar. A idéia de fim das espécies só apareceu há uns 200 anos, mas nessa época já tínhamos cerca de 1 bilhão de humanos morando no planeta, a maioria ignorantes a respeito do assunto.

      - Vô, quem foi que primeiro protegeu a Natureza?

      - Eu acho que foi Noé.

      - Noé? Quem foi Noé? Conta pra mim, vô.

      - Noé  foi um personagem bíblico. Sua história é conhecida há muitos e muitos anos. Muito antes de Cristo, um homem humilde chamado Noé foi avisado por um anjo que uma grande enchente seria causada por uma chuva torrencial que duraria 40 dias e noites. Essa chuva ficou conhecida como o “Dilúvio”.

      - Uau!! E aí?

      - O anjo lhe disse o que deveria fazer. Deveria construir um imenso barco e abrigar nele um macho e uma fêmea de cada espécie viva. Esses bichos seriam soltos depois que a chuva parasse. Cada casal desses garantiria a continuidade das espécies depois da chuva.

Noé ouviu as instruções do anjo e, junto com seus filhos e amigos, construiu um barco gigantesco, chamada a “Arca de Noé”.  Mal acabou de construí-la, a chuva começou. Os bichos foram levados para a arca e ela foi fechada. A chuva fortíssima transformou a região num imenso mar sobre o qual a arca navegou sem rumo. Quarenta dias depois, as águas baixaram e ela se assentou sobre solo firme. Os bichos então foram soltos, e cada um procurou um lugar para viver. Essa é a história.

      - Mas vô, e como é que esses bichos arranjaram comida?

      - Isso a história não conta. Também não conta como foi que as pessoas e os bichos se alimentaram durante o dilúvio. Para alimentar os herbívoros, ele precisaria ter armazenado na arca umas 500 toneladas de ervas, para os carnívoros quantidade semelhante, só que de animais para abater. Levando em conta as aves e outros bichos, talvez 1000 toneladas só de comida. É como o peso de 100 ônibus. Tinha de ser um grande barco. Principalmente porque o dilúvio poderia ter durado mais do que o previsto. Construir um barco desses não é tarefa para um punhado de pessoas. Muita madeira teria de ser cortada e preparada, e só muitas pessoas juntas poderiam fazer esse trabalho. Da madeira usada, com certeza não existem mais vestígios. No monte Ararat, na Turquia, existem locais onde se supõe que a arca tenha se assentado. Mas muito já se procurou e nada se achou.

      - E então, vô, o que é que pode ter acontecido?

      - Eu acho que essa história, na verdade, não aconteceu. Deve ser uma parábola.

      - Uma parábola? O que é isso?

      - É uma história que nos traz um fundo moral. No caso, Noé e os bichos eram irmãos, filhos do mesmo Pai, nosso Criador. Por algum motivo o Dilúvio estava para acontecer e os bichos não poderiam se salvar. Era preciso que a mão poderosa do homem fizesse alguma coisa para salvá-los. Os bichos não poderiam nunca construir uma arca, e só alguma coisa que flutuasse poderia salvar a todos. Noé era um homem puro de coração, uma pessoa que levou a cabo com seriedade a missão que o anjo lhe trouxe. Fosse ele uma pessoa qualquer, levaria na arca apenas os bichos que pudesse comer. Mas consta que havia leões, elefantes e outros. Para esses animais, a viagem na arca foi como um renascimento da espécie. Noé foi como Deus para esses bichos, muito mais que apenas um parceiro.

      A história ensina que cabe ao homem proteger a criação divina com a sua inteligência e habilidade. Somos todos irmãos, uns diferentes dos outros, percorrendo juntos a estrada da vida. Não podemos usar os bichos para satisfazer nossos prazeres nem lhes fazer sofrer, pois isso é um desvio da missão que Deus nos confiou. Noé pode ter sido o primeiro naturalista de que se tem notícia, mas pode não ter existido.