Era uma vez... 


@ REVELAÇÕES (2007)

lualuaEstamos no mês de Dezembro, época de grande atividade no Pólo Norte, quando a Magia do Natal se torna mais forte e especial para cada um de nós. Um local distante dos olhos, muita neve, presentes, brinquedos, muitos anões e gnomos trabalhando em uma grande casa. A casa de Veynar, que todos conhecemos como Papai Noel.

Na manhã do dia 23 de Dezembro, Veynar estava cansado por ter passado a noite toda ajudando os anões com os preparativos do Natal, e resolveu ir até sua sala para repousar um pouco. Era um ambiente muito aconchegante e a lareira parecia acalentar suavemente com o seu calor. Veynar sentou-se em sua poltrona e suspirou aliviado pelo momento de descanso, enquanto observava calmamente sua Árvore de Natal. O que mais impressionava nela era sua ornamentação com vários globos de cristal de tamanhos diferentes. Cada um deles mostrava decorações e cenas de Natal que estavam acontecendo naquele momento em vários países. Era uma visão mágica!
Ele já estava quase cochilando perdido em seus pensamentos, quando se surpreendeu ao ver uma luz forte que vinha do canto da sala.
Entre uma janela coberta por cortinas brancas com detalhes em verde claro e um quadro pintado a óleo mostrando um bosque com grandes árvores e um riacho, estava uma grande estante que ocupava, do chão ao teto, um espaço nobre na sala, contrastando com um papel de parede floral já desbotado pelo tempo.
De base quadrada e exatamente no canto, a estante tinha dois lados encostados na parede e outros dois formados por portas de vidro emolduradas em carvalho trabalhado em baixo relevo. Em seu interior, uma única coluna cilíndrica de madeira, bem no centro da estante, dava sustentação a uma porção de prateleiras giratórias em formato de disco. Com um sistema simples mas eficiente, ao se abrirem as portas, toda a coluna giratória de prateleiras era projetada para fora deixando evidente uma grande quantidade de caixas de cedro, todas do mesmo tamanho, diferindo apenas por símbolos marcados em suas tampas. E era justamente uma dessas caixas que parecia guardar um pequeno sol, e que agora já não conseguia conter sua luz.

Veynar se levantou, como que se nada pudesse impedi-lo:
- Depois de tanto tempo... - disse ele parecendo estar aliviado enquanto caminhava lentamente, como se estivesse sendo guiado pela luz.
Abriu as portas de vidro que há muito não eram abertas e pegou a única caixa dentre todas, que brilhava intensamente.
Quando ele a abriu, uma luz lhe revelou o que precisava fazer, e aonde ir.

Um pouco antes desse momento, em uma vila bem longe dali, o calendário ainda mostrava o dia 06 de Dezembro, e podemos ver William já se preparando para dormir. Essa era uma noite especial, onde ele seguia a tradição em escrever uma carta com um pedido para o Papai Noel.
Quando ele levantou seu travesseiro feito com plumas de ganso, para colocar a carta sob ele, ficou surpreso, pois encontrou um livro. Sua capa era de um vermelho intenso e a sensação do toque lembrava o veludo. O título estava escrito em dourado, como se fossem veios de ouro: "Os Dez Contos Mágicos de Natal".
William ficou encantado com a beleza do livro. Suas páginas se assemelhavam a um papel de pergaminho e o texto parecia ter sido escrito à mão por um calígrafo.

Ele saiu ansioso para agradecer sua mãe pelo presente, mas percebeu que a luz do quarto dela já estava apagada, então voltou, e começou a ler o livro. Seu visual era mágico e a história era envolvente, mas William estava um pouco cansado e logo foi vencido pelo sono.
Ele acordou cedo, e depois da surpresa daquela noite, resolveu olhar novamente sob seu travesseiro, na esperança de talvez encontrar algo novo. Levantou-o lentamente, mas só encontrou a sua carta. Sentiu que havia algo de diferente com ela, e tinha razão, pois quando ele a abriu percebeu que o papel estava totalmente em branco. Seu pedido havia desaparecido.

Sua mãe Laudicéia já estava com o café da manhã pronto. O aroma de pão quente com manteiga e do café estava em toda a casa. William chegou com fome e ansioso para agradecê-la.
- Mãe, bom dia! - disse ele enquanto lhe dava um beijo e um abraço bem apertado. - Obrigado pelo presente, gostei muito do livro que a senhora me deu.
- Bom dia meu filho. - Mas, que livro é esse?
William olhou assustado para sua mãe, e ficou tão surpreso quanto ela.
- Mas então não foi a senhora? - Eu encontrei-o debaixo do meu travesseiro ontem à noite.
Sua mãe pegou o livro e também ficou impressionada com ele.
- Que livro lindo, meu filho!
- Será que foi o papai? - comentou ele.
- Eu acho que ele me contaria se fosse te fazer uma surpresa. - disse Laudicéia pensativa.
O clima de mistério sobre o livro, continuou mesmo durante a conversa no café da manhã.

William morava com seus pais, e viviam em muita harmonia.
Ele tinha características raras, principalmente nos dias de hoje. Não gostava muito de assistir televisão, nem se importava com política ou futebol. Valorizava ouvir e tocar músicas suaves ou clássicas. Gostava de ler bons livros, assistir filmes, conversar com os amigos, estar com sua família, mas também valorizava ficar alguns momentos sozinho.
Prezava muito os sentimentos, e era muito carinhoso com todos. Alguns até o achavam "estranho", mas apesar disso ele sempre era procurado, pois sua presença parecia despertar o que cada pessoa tinha de melhor em si.

Como ele já estava em férias, acabou o café da manhã, pegou o seu livro e avisou sua mãe que estaria na Floresta.
Eles eram afortunados, pois moravam em uma região circundada por altas montanhas, e um clima ameno o ano todo.
Essa Floresta ficava praticamente do lado da casa deles e era um lugar realmente especial. Praticamente intocada e antiga, com muitos Cedros, Pinheiros, um Carvalho muito grande e dois Olmos que pareciam crescer como gêmeos, de tão próximos.
A Floresta reservava muita paz e harmonia, mas também alguns segredos para aqueles que realmente se interessavam em ver além dos olhos e sentir além do corpo.
O chão era coberto com os pequenos ramos e folhas secas que caiam a cada ano, formando um verdadeiro manto macio. Caminhar sobre ele era uma sensação indescritível.
William quase sempre, para não dizer sempre mesmo, ia sozinho, pois seus colegas preferiam atividades de mais "emoção" e não acreditavam encontrar isso em uma floresta.
Na verdade, William vivia mais "emoções" do que a maioria de seus colegas e mesmo nós, poderíamos imaginar serem possíveis.

Ricardo morava em uma cidade grande, e já estava programando suas férias para lugares com o que ele mais gostava: montanhas, cachoeiras, frio, e muita magia.
Ele estava pesquisando em revistas e na Internet, por algumas opções para sua viagem, e de repente viu uma pequena reportagem que o deixou fascinado: "Crop Circles".
"São desenhos geométricos que tem aparecido desde 1970, nas plantações de alguns lugares do mundo, principalmente na Inglaterra, e tem deixado alguns cientistas com a certeza de que esses desenhos são feitos por alguma forma de vida inteligente, fora do nosso planeta."
Ricardo ficou tão fascinado, que comprou um livro sobre o assunto e já colocou na sua bagagem de férias. Estudar esses assuntos "misteriosos" era um de seus hobbys.

Ele tinha escolhido algumas opções de viagens, mas desistiu de todas elas e resolveu ir para um lugar pouco conhecido, chamado "Vila dos Cedros".
O que o fez decidir foi a forma como ele ficou sabendo sobre esse lugar.
Ricardo recebeu em sua casa, um folheto de uma pousada dessa vila, que chegou estranhamente a ele, sem parecer ter passado pelo correio.
Era um lugar exatamente como ele gostava, e ele logo telefonou para fazer a reserva. Eles só tinham dois quartos disponíveis. Não que eles tivessem mais quartos normalmente, eram só dois mesmo.

A viagem foi tranqüila e ele chegou na pousada às 21:21h do dia 06 de Dezembro. O horário chamou a sua atenção, pelos números repetidos, que quase sempre o acompanhavam.
Enquanto fazia o seu registro comentou sobre o folheto que ele tinha recebido, mas segundo eles, a pousada nunca havia feito nenhum tipo de propaganda.
- Como só temos dois quartos, os hóspedes que recebemos normalmente são por indicação de outros que já estiveram conosco. - disse o Sr.Daniel, dono da Pousada.
- Mas eu tenho o folheto aqui, disse Ricardo procurando na sua bagagem.
O Sr. Daniel ficou curioso para ver, mas o Ricardo procurou, e procurou, mas não encontrou nada. O folheto tinha desaparecido.
O clima de mistério estava como ele gostava, mesmo sabendo que no fundo ele sempre ficava muito ansioso pelo que estava para acontecer.

Como já era tarde ele só fez uma refeição leve e subiu para o seu quarto. O cansaço da viagem não o fez esquecer de um costume que ele fazia todos os anos nessa data.
Teve uma noite tranqüila e dormiu muito bem mesmo. Acordou bem cedo, como de costume, e quando olhou pela sua janela, percebeu o quanto à noite tinha sido fria, pois o gramado que circundava a pousada estava totalmente branco.
Ele estava mais animado do que de costume, e tinha motivos para isso, pois o folheto foi só o começo do mistério.
Desceu as escadas para tomar o seu café da manhã, e já ouvia as risadas da Dona Maili, esposa do Sr. Daniel. Ela era muito animada e estava sempre sorrindo e rindo.
A mesa já estava pronta e Ricardo comeu um pouco de tudo, e estava realmente delicioso. Como ele já tinha descido com sua mochila, assim que terminou o café, já saiu para conhecer a Floresta que ficava ao lado da pousada.

Ricardo começou a sua caminhada e quanto mais ele adentrava, mas ele se sentia como se fizesse parte dela. Encontrou alguns cogumelos daqueles típicos de desenhos animados, ou seja, vermelhos com manchas brancas.
Foi caminhando e percebendo cada sensação, cada perfume de madeira molhada, de cedro ou de pinheiro. A sensação de tocar o musgo úmido que recobria alguns troncos das árvores. A beleza das teias de aranha ainda com pequenas gotas de orvalho da madrugada, que as fazia brilhar ao sol. Ele se sentia vivendo em um sonho.

Foi caminhando praticamente integrado na natureza, quando percebeu bem ao longe, alguém recostado em uma árvore.
Era o William, que percebeu a sua aproximação e parou de ler o seu livro por um momento.
Quando Ricardo chegou bem próximo, William olhou-o fixamente, sorriu e disse:
- Demorou, hein?
Ricardo ficou surpreso, pois nunca o tinha visto, e nem sabia bem o que dizer. Estendeu a mão para cumprimentar, e...
- Demorei? - É que eu cheguei ontem na cidade. - Meu nome é Ricardo. - disse ele rindo.
- Ah... - Bom dia, eu sou o William.
- Eu não queria te atrapalhar, pois vejo que você também gosta de ler, e esse lugar é mesmo excelente para isso.
- Aqui eu tenho muita paz. - Comecei hoje a ler um livro com Contos de Natal. - disse ele enquanto pegava o livro para mostrar.
Ele se aproximou, pegou o livro como se não acreditasse no que seus olhos estavam vendo.

- Aconteceu alguma coisa? - perguntou o William impressionado com o olhar do Ricardo. - Você está bem?
- Acho que estou! - Onde você conseguiu esse livro? - disse ele curioso, enquanto continuava olhando cada detalhe da capa e do conteúdo.
- Bem, na verdade eu ganhei ontem à noite, mas não sei bem quem me deu.
- Como assim não sabe bem?
William tentou explicar o que tinha acontecido, mas antes que ele pudesse, Ricardo o interrompeu bruscamente, enquanto abria sua mochila e dizia:
- Eu acho que precisamos conversar. - disse ele mostrando um livro.
- Poxa, mas é igual ao meu... - disse William.
-
Os dois passaram um tempo comparando os livros, e realmente eram idênticos. Aos poucos foram percebendo que ambos tinham mais em comum do que imaginavam: Os dois haviam escrito cartas para o Papai Noel naquela mesma noite e os livros apareceram exatamente da mesma forma.
William estava olhando o seu livro e não havia percebido até esse momento algo muito misterioso.

- Olhe Ricardo, encontrei um símbolo e um verso bem no início de algumas páginas em branco.


"Dois seres, tempos antigos
Uma amizade, dois amigos
Dois destinos, um sentimento
Um mistério, um envolvimento".

 

Ricardo olhou o símbolo como se já o tivesse visto em algum lugar, mas não se lembrava bem e não comentou nada.
Ele começou a procurar no seu livro também, e encontrou o mesmo símbolo, mas com um verso diferente:


"Um caminho, uma esperança
Uma caixa, uma revelação
Um símbolo, uma aliança
Uma luz, uma união".

Os dois conversaram muito e também descobriram que apesar do título fazer referência a "Dez" Contos de Natal, só havia "Nove" contos escritos.
Mas, logo depois...
- Ah! - Eu sabia que já tinha visto esse símbolo. - Espere aí. - disse o Ricardo revirando sua mochila.
- O que foi? - perguntou Wiliiam curioso.
- Espere um pouco, eu acho que descobri de onde eu conheço esse símbolo. - disse Ricardo já com o seu livro de "Crop Circles" nas mãos.
Folheou algumas páginas, e...
- Achei! - disse ele eufórico. - Olhe o desenho aqui. - Veja, é um "Crop Circle" que apareceu na região de Wiltshire na Inglaterra em 1991.
- Poxa que incrível! - disse William quase sem piscar os olhos.
- Só não sabemos a relação entre um livro de Contos de Natal e um "Crop Circle" aparecido na Inglaterra. - disse Ricardo sendo um pouco irônico.
- Tem razão! - Só isso! - riu William.

Ficaram por muito tempo conversando e eles estavam com mais mistérios do que conseguiam solucionar. Só perceberam o passar do tempo em dois momentos: quando estavam com fome, que resolveram facilmente com algumas bolachas e frutas que ambos tinham nas mochilas, e quando estava escurecendo no final do dia, que sabiam que precisavam ir embora.
Passaram praticamente o dia todo juntos, e ambos sentiam como se conhecessem um ao outro há muito mais do que algumas horas.
Nos dias que se seguiram, os dois amigos sempre se encontravam na floresta, ou para lerem o livro, ou para ficarem ouvindo o som da água entre as pedras de um pequeno riacho que margeava um dos lados da floresta, ou para conversarem, que é o que eles mais gostavam.
Não conversavam somente sobre o livro, descobriram também muitas características iguais entre sí. Preferências musicais, formas de ver e sentir a vida, além do valor que eles sempre deram para a amizade.

De tanto o William comentar com seus pais sobre o seu novo amigo, o Ricardo foi convidado para tomar um café da tarde com bolo. Laudicéia e Sebastião, os pais do William, o receberam muito bem, e o Ricardo ficou impressionado com o carinho e a harmonia da família. Era realmente um lar.

O tempo foi passando e no início, Ricardo pretendia ficar uma semana de férias na "Vila dos Cedros", mas ele foi ficando mais tempo.
Já era a semana do Natal, e os pais do William o convidaram para passar a Ceia com eles, e ele é claro, aceitou.

No dia 23 de Dezembro pela manhã, William acordou e passou na pousada bem cedo.
- Bom dia Ricardo, dormiu bem?
- Bom dia amigo, eu dormi muito mesmo, e você? - Pensei que fôssemos nos encontrar na floresta, como de costume.
William se aproximou dele e falou bem baixinho que pretendia mostrar algo.
- Nossa que mistério! - Aonde vamos?
- Na floresta, mas em um lugar que você não conhece. - disse ele murmurando.
Os dois pegaram alguns pãezinhos e duas fatias de bolo da mesa do café da manhã, para levarem para a caminhada. Andaram por lugares realmente diferentes. Atravessaram um trecho dentro de um pequeno riacho, e chegaram a uma clareira que não parecia ser natural, pois as árvores formavam estranhamente um círculo perfeito ao redor dela.
- Chegamos! - É aqui. - disse William.
O Ricardo achou o lugar bonito, mas talvez estivesse esperando algo mais, e ficou esperando o "algo mais".
- Ricardo, faz muito tempo que eu venho aqui e ninguém sabe sobre "eles". Até eu te conhecer, eu não tinha encontrado ninguém em quem eu pudesse confiar esse segredo. - Alguém que valorizasse tanto a amizade e a magia, como você, meu amigo. - Alguém que estivesse aberto para ver o mundo como ele realmente é.
- Nossa William, obrigado de coração. - Eu também estou muito feliz com a nossa amizade e a cada momento eu tenho mais certeza que você realmente faz parte da minha própria história.

Eles se abraçaram muito emocionados, e nesse tempo algo aconteceu..., pois quando Ricardo abriu seus olhos, pensou que estivesse sonhando. Eles estavam rodeados por gnomos, fadas, e muitos elementais da natureza.
A magia era muito grande e até mesmo as árvores que rodeavam a clareira, agora tinham rostos.
Ricardo não conseguiu conter a emoção, e chorou muito de felicidade. Um de seus maiores sonhos na vida, era conseguir ver um gnomo, e agora além de ver um, ele estava vendo vários e também todos aqueles seres, que aos poucos se aproximavam timidamente deles.
Os dois sentaram-se no chão e o William foi apresentando cada um dos seus amigos, e olhe que eram vários mesmo.
Depois de um tempo...
- William, tem certeza de que não estamos sonhando? - disse Ricardo com um gnomo em sua mão.
- Tenho sim! - Para mim também parece um sonho eu estar aqui com você. - Eu esperei muito tempo por isso.
- E eu também, meu amigo. Eu também! - disse Ricardo extremamente feliz pela honra que o William tinha lhe proporcionado.

Eles ficaram lá por horas e horas, vivendo uma sensação que parecia estar além do tempo e além da imaginação. Os gnomos impressionaram muito, mas o Ricardo também ficou encantado em poder conversar com as árvores e ver as expressões de seus rostos enrugados pelo tempo.
Um pouco antes do crepúsculo, William avisou o amigo que estava na hora de irem embora, pois já estava escurecendo.
- Mas já temos que ir para casa?
O Ricardo estava tão envolvido com o momento que tinha receio de acordar e perceber que tudo tinha sido um sonho. Mas felizmente não era um sonho. Despediram-se de todos e começaram a voltar para casa. Ricardo já estava na vila há tanto tempo que freqüentemente se referia à pousada, como "sua casa".

- William! - Posso te fazer uma pergunta? - É que eu estou com essa dúvida desde o dia em que eu o conheci.
- Hummm... eu acho que já sei o que é. - É sobre eu dizer: "Demorou hein?"
O Ricardo riu...
- É isso mesmo. - Porque você disse aquilo?
- Bem..., eu tenho visitado esse lugar, sempre sozinho, desde que eu era criança, e há alguns meses atrás, os "Gnomos mais velhos", como são conhecidos os sábios, me disseram que estava para chegar alguém como eu. - Mas não disseram quando, e nem quem era. Fiquei esperando alguém, até que você apareceu na floresta naquele dia, e eu senti que era você.
- E era realmente eu? - disse Ricardo sorrindo.
- William riu. - Claro que sim. - Por isso eu o levei até a clareira, e você conseguiu vê-los, e conhecer o quanto esse mundo é bonito e mágico.

Amanheceu o dia 24 de Dezembro, véspera de Natal e o Ricardo apareceu cedo para ajudar os pais do William com os preparativos.
A casa deles era muito aconchegante e estava bem decorada. A família havia se reunido para montar a Árvore de Natal no dia 06 de Dezembro, e realmente tinha ficado muito linda. A lareira acesa com as meinhas penduradas em sua coluna de pedra, e algumas velas tornando o ambiente realmente acolhedor.
Sua mãe era muito caprichosa, e o aroma dos pratos que ela estava preparando, estavam ótimos. Ricardo e William ficavam rodeando a cozinha, só fazendo... "Hummm", "Hummm....Bom".
O entardecer foi maravilhoso com um pôr do sol anunciando que realmente eles teriam uma noite estrelada.
Sentaram-se à mesa para celebrar, fecharam seus olhos e fizeram uma oração de agradecimento pela harmonia, amor e também pela fartura da ceia.

Quando o William e o Ricardo abriram seus olhos eles estavam em outro lugar.
Parecia ser sobre uma montanha, pois muitas luzes eram vistas ao longe, apesar de não parecerem em nada com cidades.
O céu estava totalmente estrelado. O chão era de pedra, mas continha alguns pontos que brilhavam sob a luz da lua, parecendo que eles andavam sobre as estrelas. Havia muitos Cedros circundando o local e uma leve brisa soprava eventualmente envolta no aroma do cedro.

Assustaram-se um pouco e William se aproximou do amigo.
- Ricardo, onde estamos?
- Estão bem, meus amigos. - disse uma voz que parecia emanar de todas as direções, mas que os tranqüilizou.
Nesse momento o Papai Noel apareceu para eles:
- Sejam bem-vindos, meus amigos!
- O senhor é... o Papai Noel de verdade? - disse Ricardo.
- Bem, meu nome é Veynar, mas sim, sou o Papai Noel "de verdade"... - disse ele rindo, enquanto abria seus braços para acolher carinhosamente os dois.
Ele os abraçou e beijou, enquanto eles se sentiam como se estivessem sonhando.
- Mas, Papai Noel, onde estamos? - perguntou William curioso, enquanto admirava o lugar.
- Bem, só posso dizer que é um lugar muito especial, e vocês estão aqui, pois mereceram esse momento pelo que cada um tem sido. - Vocês não são os primeiros e com certeza não serão os últimos, mas já fazia muito tempo que esse encontro não acontecia.
Os dois ouviam atentamente cada palavra de Veynar, e ele continuou:
- O meu desejo é trazer cada ser humano para viver esse momento, inclusive você que está lendo essas palavras. - Mas, depende somente do que cada um é, faz, ou sente; e não do que cada um pensa em ser, fazer ou sentir.
Veynar caminhou lentamente, e parou próximo ao que parecia ser um caminho de estrelas no chão de pedra.
- Tenho um presente muito especial para lhes entregar, meus amigos - disse Papai Noel, enquanto estendia seu braço direito na direção do caminho, que conduzia para um local iluminado por uma luz esverdeada.
Caminharam um pouco e quando se aproximaram, viram uma caixa bem no centro dessa luz, e no mesmo momento ambos se lembraram do verso que dizia:

"Uma caixa, uma revelação".

Aproximaram-se ainda mais devagar da caixa e perceberam que sobre ela havia dois símbolos idênticos aos que estavam no Livro dos Contos de Natal. Olharam um para o outro, e William estendeu a sua mão para pegar a caixa, mas seus dedos passaram através dela. Ricardo tentou da mesma forma, mas aconteceu o mesmo. Veynar os observava em silêncio, mas ficou bem distante, respeitando a privacidade daquele momento que realmente era só deles.
- Vamos tentar juntos? - disse Wiliam.
Foi exatamente desta forma que eles conseguiram. Pegaram a caixa e estavam muito ansiosos. Respiraram fundo, e abriram sua tampa que era dividida exatamente no centro, revelando o seu interior que emanava uma luz esverdeada e um perfume forte de cedro.
Dentro dela havia dois retângulos de madeira, com perfurações luminosas formando um "Crop Circles" que parecia representar algum tipo de união. Havia também dois círculos de luz onde estavam dois símbolos em prata, exatamente iguais aos que eles encontraram na tampa.

 

Era um momento sem palavras, e eles estavam tão envolvidos e integrados, que seus sentimentos pareciam mover suas ações.
Ricardo pegou o primeiro símbolo, e o colocou ao redor do pescoço do amigo, num movimento de profundo respeito. William fez o mesmo colocando o outro símbolo ao redor do pescoço do Ricardo.
Ficaram alguns tempo com os olhos fechados e em silêncio, tentando assimilar tanta magia.

Nesse momento, bem a frente deles, uma luz começou a formar um desenho sobre o chão de pedra, e um ser apareceu em seu centro. Ele aparentava ter uma idade semelhante a de Veynar, ou seja, não havia como saber. Tinha olhos azuis, cabelo escuro e uma expressão serena.
Veynar se aproximou para recebê-lo fraternalmente, e logo vieram conversar com os dois que estavam muito curiosos e um pouco apreensivos. Seus símbolos começaram a brilhar com sua aproximação.
- William e Ricardo, eu gostaria de lhes apresentar o meu grande amigo Andryus.

Os dois olharam para ele, e um impulso muito forte vindo de suas almas, os fez se entregarem em um grande abraço. Não conseguiam compreender, mas sentiam como se o conhecesse, e que esse momento representava um reencontro muito esperado.
Depois disso, Andryus olhou atentamente para cada um:
- Fazia muito tempo, muito tempo mesmo... que dois seres não descobriam a verdade sobre o ser, o sentir e o expressar. - Esse símbolo é a cristalização do sentimento que os aproximou novamente nessa existência. Seus passados verdadeiros estão muito além de suas lembranças, mas posso lhes dizer que sempre foram de muita amizade e amor.
As palavras de Andryus chegavam ao fundo de suas almas, como uma voz que vinha do passado, do presente e do futuro, despertando uma incrível sensação de sentir o eterno agora. Algo que com certeza as palavras jamais conseguirão descrever totalmente.

Ricardo murmurou algo para o William, e Veynar percebeu...
- Se quiserem fazer algum pergunta, fiquem a vontade.
- Desculpe a minha curiosidade, mas qual a relação entre os "Crop Circles" e tudo o que aconteceu? - disse Ricardo.
Veynar olhou para Andryus, como se esperasse uma permissão para revelar a verdade para eles.
- Pode deixar que eu conto. - disse Andryus depois de respirar fundo.
- Bem, há alguns anos atrás, um pouco depois de 1970, esses "Crop Circles" tem aparecido com mais freqüência em alguns lugares do mundo. Seu significado verdadeiro ainda não foi revelado, mas posso lhes contar o que sabemos. - Todos os símbolos materializam, quase sempre em seu centro, uma "Caixa de Cedro", como essa que vocês receberam.
A cada aparição, Veynar vai até o local, recolhe a caixa e a leva para o Pólo Norte, onde é guardada juntamente com dezenas que já existem.
Elas ficam lá, até que um dia, o sentimento puro entre duas pessoas, como aconteceu com vocês, despertem o seu poder, e essas pessoas possam ser consagradas pelo símbolo e irradiarem o seu amor universal pelo mundo.

Andryus respirou fundo e continuou...
- A verdade sobre o objetivo em existirmos, está no mais simples: Aprender com os sentimentos e as sensações que conseguimos na amizade, no amor, em um abraço, um beijo, ou simplesmente no toque, para descobrirmos que já somos seres de luz e que todos também são. - Nessa jornada, aproveitem ou criem situações para conhecerem as pessoas da única forma que as conhecerão realmente: estando a sós com elas. Muitos esperam uma vida por um momento como esse e nunca conseguem alguém que os escute ou lhes dê total atenção. Pensem nisso!

Veynar olhou para o céu, e:
- Bem, agora está na hora de vocês voltarem para o seu tempo.
William respirou fundo:
- Poxa, parece que faltam palavras para eu conseguir dizer o que significou tudo isso para mim. - Obrigado mesmo! - Estou muito feliz e sentindo uma paz como jamais havia sentido.
Ricardo colocou sua mão sobre o ombro do amigo:
- Veynar, Andryus, esse é o dia mais feliz da minha vida. - Obrigado de coração, por cada momento que passamos essa noite.
Olhou nos olhos do William, e emocionado:
- Obrigado meu amigo, por você ser você, pois foi esse motivo que me fez ser realmente eu.
Veynar e Andryus se aproximaram deles.
- A liberdade é um dos dons mais preciosos, e vocês precisam preservá-la, pois somente assim conseguirão realizar tudo o que sonham. Nenhuma situação ou pessoa tem o poder de limitar essa liberdade. - Eu sei que devem ter ficado muitas dúvidas, mas tenho certeza de que nos veremos novamente, e muito em breve. - disse Andryus emocionado enquanto olhava para os dois.
Quando eles abriram seus olhos novamente estavam sentados à mesa, enquanto ouviam as últimas palavras da oração de Natal.
Ficaram surpresos e levados por um mesmo impulso, colocaram suas mãos no pescoço, na esperança que tudo aquilo não tivesse sido um sonho, e...lá estava o símbolo que eles haviam recebido de presente.
Suas vidas agora tinham um novo significado, pois sabiam que o símbolo iria ajudá-los a despertar nas pessoas a verdade de como viver, e não a ilusão do que ter.

"Uma luz, uma união", e um Feliz Natal para todos os dias de nossas vidas.

 

Gostaria de agradecer a minha esposa Rita Aubim pelo amor , carinho e apoio para escrever esse Conto de Natal , e ao meu amigo William Tosta Tonhato, que com sua forma de ser, sua amizade e amor fraterno, despertaram a minha inspiração para tornar o Décimo Conto de Natal, inesquecível.





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(Última atualização em 23/12/2007).


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