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O MISTÉRIO
DO ÉBANO
 Muitos
e muitos anos já se passaram desde o primeiro Natal, e
a maioria das pessoas foram esquecendo as tradições,
a fraternidade e os valores verdadeiros.
A pequena cidade de Núfar, é um exemplo disso,
pois mesmo com o brilho cada vez maior das centenas de pequeninas
lâmpadas que decoram as casas e árvores, mesmo com
os presentes cada vez mais caros e sofisticados, não sobrou
praticamente ninguém que ainda acredite no Papai Noel,
e se lembre de abrir o coração para a Magia de
Natal.
Era manhã de 6 de Dezembro,
dia de São Nicolau ou Chegada do Papai Noel. Uma neblina
cobria tudo como um manto branco, anunciando mais um dia frio
de inverno. Parecia somente mais um dia, mas algo de mágico
estava para acontecer.
Dailson havia dormido tarde,
e agora revirava na cama procurando coragem para se levantar
do aconchego dos cobertores. Deslizou suas mãos sob o
travesseiro de pluma de ganso, e encontrou um envelope.
Sua esposa Márcia, ainda
dormia tranqüilamente ao seu lado, e ele ficou em silêncio,
só observando...
Era um envelope branco como a neve, e ao toque parecia macio
e um pouco frio. Nem parecia ser de papel, pois apesar de estar
debaixo do travesseiro, não havia nenhum amassadinho.
O nome: "Dailson" estava escrito em dourado e atrás
apenas um lacre.
Ele sempre adorou surpresas e
aventuras, e sentiu um entusiasmo como se fosse criança
novamente.
Foi então que ele resolveu quebrar o lacre, e quando abriu
o envelope, encontrou uma mensagem que dizia:
" A Magia está presente
na Trindade e eternamente,
Os três escolhidos devem se reunir, enquanto o Ébano
dormir.
Não é preciso temer, quando algo mágico
acontecer."
Dailson, não conseguia
dizer nada, mas depois de alguns instantes...
- Márcia! Márcia!, acorde....
Sua esposa acordou, e Dailson
contou-lhe tudinho.
Quando ele deu o envelope a ela:
- Dailson, você viu que ainda tem algo dentro do envelope
?
- Não pode ser, tenho certeza de que só havia a
mensagem. - Deixe eu ver ! - disse ele já com o envelope
na mão.
Ele encontrou algo parecido com um talismã, dourado como
o ouro, e com estranhos desenhos.
- O que será isso? - perguntou Márcia curiosa,
mas com um pouco de receio.
- Não sei não, mas está muito misterioso.
De repente, seus três filhos
entraram correndo, como de costume:
- Bom dia papai ! Bom dia mamãe! - disseram os três
enquanto se jogavam na cama de seus pais.
Eles se abraçaram muito e então...
- Meus filhos! - Hoje aconteceu algo muito especial conosco -
disse Dailson enquanto olhava para sua esposa..
Os três ficaram quietinhos, enquanto seus olhos brilhavam
de curiosidade. Então ele começou a contar, e contou
todos os detalhes.
No final, eles fizeram muitas perguntas, mas, por enquanto até
mesmo Dailson e sua esposa não tinham respostas para suas
próprias perguntas.
Como já era de se esperar,
seus filhos não resistiram a ansiedade, e contaram para
seus colegas de escola, que voltaram com eles para ver o envelope
e o talismã.
Dailson e Márcia eram muito pacientes e atenciosos e contavam
tudinho para cada um, que viesse visitá-los.
Mas..., a notícia se espalhou, e depois de alguns dias,
havia dezenas de pessoas querendo ver e saber sobre o ocorrido.
Núfar era uma cidade sem crenças, ninguém
mais acreditava em milagres, quanto mais de Natal, mas parecia
que o acontecimento havia despertado algo mais do que simples
curiosidade.
Todos queriam ajudar a desvendar
o enigma, e essas eram algumas das indagações que
se ouvia em cada canto de Núfar:
Quem seriam os outros 2 escolhidos ? - Alguém já
viu um Ébano? - Quando é que esse tal de Ébano
dorme ? Quem teria escrito essa mensagem?
Todos procuravam pelo envelope, em suas casas, na esperança
que fossem um dos escolhidos.
Leandro, que morava com seus
pais, ficou sabendo do caso do Dailson, e inicialmente achou
que era tudo mentira, mas assim como os outros, foi vencido pela
curiosidade e resolveu enfrentar um grande desafio: "Procurar
o envelope no seu quarto." Já que ele tinha fama
de nunca arrumá-lo.
Para se ter uma idéia,
ele demorou quase uma hora para achar o travesseiro, que ele
nem usava. Mas, quando ele o encontrou, havia debaixo dele, uma
meia e, um envelope branco.
O nome: "Leandro", estava escrito nele, e quando ele
o abriu, encontrou uma mensagem e um talismã.
- Achei! - gritou ele, enquanto descia as escadas correndo.
Sua mãe estava preparando o café da manhã,
e ficou muito emocionada em ver o entusiasmo do filho por ter
encontrado o envelope.
Ambos conversaram, e Leandro
resolveu ir até a casa de Dailson.
Chegando lá, encontrou a porta apenas encostada, provavelmente
devido ao grande número de visitantes.
- Ó de casa !!! - disse ele enquanto entrava.
Dailson veio atendê-lo:
- Bom dia! Vamos entrando! - disse ele com a hospitalidade de
sempre. - Você é o Leandro, não é?
- Sou sim! - disse ele um pouco apreensivo. - O senhor é
o Dailson?
- Sim, mas pode me tratar por você. - Você veio ver
o envelope?
- Na realidade eu vim ver e, bem...mostrar. - disse ele enquanto
tirava o seu envelope, que estava oculto na jaqueta.
Dailson não sabia o que dizer.
Os dois conversaram muito, e
perceberam que os dois talismãs se uniam perfeitamente,
e as mensagens eram iguais.
O problema agora era, onde encontrar a última parte.
Logo a cidade toda já
estava sabendo sobre a descoberta do segundo envelope e a tensão
aumentava ainda mais.
O prefeito de Núfar, preocupado com os acontecimentos
que envolviam sua cidade, resolveu aproveitar o dia 24 de Dezembro,
para que todos pudessem comparecer em uma reunião na praça
central da cidade, marcada para às 16 horas da tarde.
A reunião começou pontualmente, com a mensagem
de Natal, e logo em seguida, ele chamou Dailson e Leandro, para
que se aproximassem.
- Tenho acompanhado a história
dos envelopes, e gostaria de aproveitar a ocasião para
tentarmos esclarecer esse caso. - Há alguém aqui
que ainda não tenha procurado pelo envelope em sua casa?
Ou não saiba sobre o que estamos falando?
Ninguém respondeu nada, apenas se ouviam murmúrios
e alguns risos.
- Alguém quer dar alguma idéia de como podemos
encontrar o último envelope?
Nesse momento Dona Veronice, que estava na primeira fila, levantou
a mão para falar:
O prefeito cordialmente pediu silêncio, e concedeu a palavra
a ela.
- Obrigada prefeito! - Bem..., até agora perguntamos para
todos os habitantes de Núfar, sobre o envelope, mas será
que não estamos esquecendo de dois deles.
Todos silenciaram, sem conseguir se lembrar de mais ninguém,
quando ela concluiu:
- Nâna e seu filho César,
que moram próximos à Floresta dos Cedros.
Suas palavras soaram como uma luz que se acendia na escuridão.
Nâna, era tida por todos
como uma pessoa de hábitos muito misteriosos. Alguns diziam
até que ela era uma feiticeira. Publicamente a maioria
a criticava, mas secretamente muitos a procuravam em busca de
alguma erva milagrosa, um de seus cremes anti-rugas, à
base de ervas, um conselho, ou simplesmente para passar uma tarde
com ela, tomando chá e se deliciando com biscoitos que
só ela sabia fazer.
Seu filho César, era um rapaz alto e forte que a ajudava
muito. Eles moravam em uma cabana próximo às montanhas,
bem afastada do mundo criado pelos homens, mas bem próximo
do mundo criado por Deus.
O clima da reunião ficou
tenso, pois todos resolveram falar ao mesmo tempo. Era possível
ouvir alguns comentários isolados: "Isso deve ser
obra daquela feiticeira", "Vamos todos lá para
perguntar", "Tinha que ser ela a escolhida?",
"Mamãe estou com fome, quero ir para casa".
O prefeito pediu silêncio, tentando conter os ânimos
da multidão, e depois de algumas tentativas..., ele conseguiu
falar:
- Meus amigos, hoje é
véspera de Natal, e sei que todos estão ansiosos
para resolver esse mistério, e também sei que alguns
querem ir até a casa de Nâna agora, mas não
acho uma boa idéia, porisso eu proponho que os dois escolhidos:
Dailson e Leandro me acompanhem até a casa dela, e amanhã
cedo, estaremos aqui novamente para lhes contar tudo o que aconteceu.
Combinado?
Apesar da vontade em resolver o mistério, a maioria concordou
em voltar para casa, principalmente porque era noite de Natal.
O prefeito conversou rapidamente
com os escolhidos, entrou no seu carro, e partiram para as montanhas.
- Estou aliviado em saber que
podemos encontrar o último envelope, mas ao mesmo tempo
um pouco apreensivo com tudo isso. - disse Dailson.
- Eu também! - disse Leandro.
Depois de algum tempo, chegaram
na cabana de Nâna. A luz estava acesa, e com o barulho
do carro, logo viram um vulto que moveu a cortina. A porta se
abriu e César veio na direção do carro,
enquanto sua mãe o observava da porta.
- Boa noite Prefeito! - O senhor veio para passar o Natal conosco?
- Vejo que também trouxe amigos.
- Boa noite César. Esse é Dailson e Leandro. -
Gostaríamos de falar com sua mãe.
- Que bom! - Então vamos entrando.
Nâna veio recebê-los gentilmente, e os convidou para
sentar próximos à lareira, pois a noite estava
muito fria. A casa era simples, mas transmitia um aconchego maioir
do que as mansões "frias" da cidade.
- Em que posso ajudá-los? - perguntou ela.
- Posso contar? - perguntou Dailson ansioso.
O prefeito concordou e Dailson contou todos os detalhes, enquanto
Nâna ouvia atentamente.
- ...e essa é toda a história. - concluiu ele.
- A nossa esperança é que a senhora tenha recebido
o último envelope e nos ajude a desvendar esse mistério.
César olhou para sua mãe
com a mesma ansiedade dos visitantes. Então ela se levantou
em silêncio, foi até a lareira, e..., retirou do
bolso do seu avental, o último envelope branco.
- Mãe, estava com a senhora esse tempo todo? - disse César
surpreso.
- Sim, estava. - Eu o recebi na manhã de 6 de Dezembro,
e pressenti que algo mágico iria acontecer, então
resolvi guardá-lo e esperar.
Todos estavam eufóricos, e então abriram seus envelopes
rapidamente, e resolveram unir seus talismãs, que se encaixavam
perfeitamentel.
Mas..., nada aconteceu.
- Será que estamos fazendo
algo errado? - disse Leandro.
- Espere um pouco, e o Ébano? - completou Dailson.
- Na cidade, só descobrimos que o Ébano é
uma árvore de madeira muito escura, mas não sabemos
onde encontrar uma dessas. - disse o prefeito.
Todos olharam para Nâna, que sorriu e disse:
- Venham comigo, pois eu sei onde está o Ébano
- disse ela mantendo o mistério.
Todos vestiram seus casacos,
pois o frio e o vento estavam muito fortes.
Caminharam por uns 15 minutos por uma trilha no meio da mata,
e chegaram em uma clareira, onde havia uma árvore bem
no centro.
- Meus amigos, esse é o Ébano ! - disse Nâna,
com um tom de respeito.
O local parecia mágico
e todos sentiram um arrepio, que desta vez não era de
frio.
Caminharam até a árvore, e...
- Vamos então unir nossos talismãs? - disse Nâna.
A ansiedade era grande, e sob a sombra do Ébano que era
banhado pela luz da lua, eles uniram os talismãs, num
ato de respeito e magia.
Nesse momento uma luz começou
a emanar do talismã. Era um brilho suave, parecendo uma
névoa azulada. As três partes do talismã,
se fundiram e ele saiu suavemente de suas mãos, flutuando
no ar.
Ninguém conseguia dizer nada.
O talismã foi indo na
direção do Ébano, e no momento que ele encostou
no tronco, a luz azul envolveu toda a árvore, e uma mulher
saiu de dentro dele. Ela trajava um manto branco e estava usando
o talismã em uma corrente dourada ao redor de seu pescoço.
Seus cabelos eram escuros e longos, e seus olhos eram cor de
mel.
Enquanto ela se aproximava, abriu
os braços e disse numa voz terna e calma:
- Sejam bem-vindos, meus amigos!
Todos estavam tomados de emoção
e um pouco de receio, mas Dailson conseguiu encontrar forças
para perguntar:
- Quem é a senhora?
- Meu nome é Dalva, sou uma amiga. - disse ela enquanto
os cumprimentava com um abraço. - Vejo que todos da cidade
vieram com vocês.
- Mas nós viemos sozinhos! - disse César, enquanto
olhava para os demais.
- Sozinhos? - Eu acho que não! - disse ela sorrindo.
De repente, por entre as árvores foram aparecendo lentamente,
todos os habitantes de Núfar, que os estavam seguido silenciosamente
há muito tempo. Na trilha eles tinham ouvido passos e
vozes, mas não sabiam o que era.
Todos foram se aproximando, e
formaram uma enorme círculo ao redor de Dalva, Dailson,
Leandro, Nâna, César e o prefeito.
O silêncio era completo,
quando Dalva disse:
- Tenho acompanhado essa cidade há muito tempo, e vocês
se afastaram das tradições e da magia de Natal,
ninguém mais escreve cartas para o Papai Noel. Nem crianças,
nem adultos acreditam mais nele. - Porisso eu resolvi escolher
as últimas pessoas da cidade, que ainda tinham em seus
corações uma chama de amor, carinho e inocência
de criança, para que juntos eles conseguissem despertar
o coração de cada um de vocês, antes que
fosse tarde demais.
- Mas o Papai Noel existe mesmo? - perguntou uma voz quebrando
o silêncio.
Antes que Dalva tivesse chance
de responder essa pergunta que a cidade inteira aguardava ansiosa.
Algo inesperado aconteceu...
Começou a nevar..., mas...
- Olhem, está nevando somente sobre o Ébano - disseram
alguns.
O acontecimento parecia surpreender até mesmo Dalva que
olhava atenta para o Ébano, que começava a ficar
branquinho.
Nesse momento uma voz vinda de
entre as árvores, disse em tom forte:
- Boa noite a todos vocês, filhos e filhas de Núfar.
Quando ele se aproximou mais, todos puderam ver que era um homem
velho, com cabelo e barbas brancas.
Dalva, se curvou em sinal de reverência, enquanto todos
diziam:
"Quem será ele?", "Mamãe estou com
medo".
Ele se aproximou e todos abriram
caminho para que ele fosse até o Ébano.
- Meus amigos e amigas eu sou Veynar. Mas acho que todos vocês
me conhecem como...: Papai Noel.
- Então você existe mesmo !! - disse Leandro, expressando
um sentimento que a maioria da cidade pretendia dizer, se não
estivessem tão emocionados com tudo aquilo.
Ele se aproximou de Dalva, olhou em seus olhos, enquanto demonstrava
um ligeiro sorriso, quando disse:
- Vocês foram abençoados
pela magia, e pela alegria de Dalva. Eu a tenho acompanhado,
há muitos e muitos anos, e sei de todos os seus feitos.
Ela viaja visitando diversas cidades nos 4 cantos do planeta,
sempre resgatando a Magia de Natal. Eu nunca a havia encontrado
pessoalmente, mas me sinto honrado em ter a oportunidade de agradecer
pela sua dedicação.
Veynar se curvou e beijou-lhe
a mão em sinal de respeito e gratidão. Dalva estava
muito emocionada e honrada.
De repente um garoto correu para
abraçá-la..., e nesse momento todos começaram
a festejar a Noite de Natal mais importante de suas vidas.
Os abraços, o carinho, o amor e a magia, estavam presentes
em cada um, numa sensação de felicidade além
dos próprios sonhos.
... e foi assim que aconteceu,
quando eu ainda era um garoto e morava em Núfar. - Meu
coração jamais se esquecerá daquele Abraço
Mágico.
Autor: Ricardo Namur Claro
Gostaria de agradecer à
minha esposa Rita Aubim pelo amor e apoio para escrever esse
Conto de Natal, e aos meus amigos:
- Dailson Franklin de Paula
- Leandro Brioshi de Oliveira
- Eliana Muniz (Nâna)
- César Muniz
- Veronice Carvalho Rocha
Que se destacaram pelo carinho,
amizade e atenção.
Uma menção especial para minha mãe: Dalva
Namur Claro, que estará sempre viva em nossos corações.
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