Deitada de costas, ela estava pensando:

- (Ele tinha razão quando me disse que o divã do psicólogo nunca é muito cômodo.)

- Estava dizendo que teve um sonho.

- (Mas, que coisa fez tanta graça dos lacanianos paulistanos?)

- Estava pensando em alguma coisa?

- Sim ... não ... Sim, eu teve um sonho a noite passada.

- Quer me contar?

- Quero. Eu estava deitada numa cama. A habitação estava a meia luz. De repente, entra um homem abrindo violentamente a porta. Se aproxima à cama, olha fixo para mim, tira uma arma de sua cintura e atira em mim. Eu morro.

- Esse homem lhe é conhecido? Ou parecido com alguém?

- Não dá para ver a cara dele.

- Como assim?

- Eu estou deitada de costas à porta e todo acontece rapidamente. Eu vejo a cena de fora, como num filme. A cama está no lado esquerdo do quarto. Tem uma janela no lado direito por onde entra a luz. Quase no centro fica a porta pela qual entra o homem.

- Não dá tempo de ficar apavorada, não é?

- Não ... heim ... não, não dá. (Pavor não. O que eu estava sentindo?).

- E você disse que o homem não lhe lembra a ninguém em particular ...

- Era um homem grandão, de movimentos bruscos, como Stallone.

- Como quem?

- Como Silvester Stallone, o ator de cinema.

- E porque ele ia querer matá-la?

- Ele queria realmente me matar? Sim, claro. Por que ele queria me matar? ... Não sei, estou confusa.

- Ele atira em você, ele mata você, não é?

- Sim, sim. Ele atira três tiros e me mata.

- E ai você acordou?

- Acordei.

- E depois de acordar sentiu medo?

- Não, eu estava confusa.

- Não sentiu medo?

- Sim, claro, sabendo que ia morrer, eu estava como com medo.

- Claro, depois que morreu já não dava para sentir mais nada.

Paciente e psicólogo riram. Ele lembrou a hora e a sessão terminou na paz dos honorários.


Pouco antes da sessão de psicanálise ela conheceu um rapaz numa livraria. Os dois estavam procurando novidades em literatura, o que chamou à atenção de ambos. Ai começou o diálogo, foram a tomar um café e continuaram a conversa. Primeiro falaram de romances modernos, mas quando ela disse que de ai a pouco ia ter sua terapia, o diálogo mudou de rumo: passou para Freud, a neurose moderna, a depressão e coisas similares. Quando ela disse que o seu terapeuta era um lacaniano paulistano, ele tentou em vão esconder seu sorriso. Trocaram números de telefone para continuar a conversa. Dois dias depois marcaram um novo encontro. O tema, desde o início, foi psicologia.

- Sim, eu já li bastante Freud, mas não tenho sacos para ser psicólogo. Agüentar a conversa de pessoas que o único problema real que tem é que não sabem o que fazer com o tempo. Claro que tem pacientes interessantes, como os de Freud, mas também ele deve ter suportado imbecis que nem deram para ser citados. Por outra parte, das pessoas que acho interessantes, não quero ser o psicólogo. Quero ser o amigo, por exemplo. Também não quero ser o psicólogo de meus amigos. Por isso não gosto de interpretar os sonhos por interpretar.

- Você sabe interpretar sonhos? Eu teve um sonho que contei para meu psicólogo, mas ele ainda não me disse nada. Como se faz para interpretar um sonho?

- Com talento. Interpretar um sonho requer de uma habilidade especial. Tem envolvida uma questão de sensibilidade. O inconsciente é como o Apolo de Heráclito: nada diz, nem nada cala, só dá sinais. A chave para decifrar a maioria dos sonhos é algum sentimento. Algum sentimento que não condisse com o que está acontecendo no sonho. Por isso é que um psicólogo precisa de uma sensibilidade especial.

- Mas Freud tem uma teoria da interpretação dos sonhos, onde o fundamental é que o sonho é a expressão de algum desejo oculto, que a pessoa não quer reconhecer.

- Sim, mas isso não significa nada. Um sonho é multiface e expressa, misturados, muitos desejos de diferentes tipos. Sempre é fácil achar algum desejo expresso em qualquer sonho. Mas isso não vale nada. É como o Édipo. Freud usa o Édipo como chave mestre e os psicólogos com cavalo na batalha: o Édipo corre com o prejuízo e eles vão encima. Vasculhando sempre se chega ao Édipo, mas o problema não é chegar, mas como se chega. O Édipo e o happy end da terapia freudiana, mas muitos psicólogos reagem como as pessoas ingênuas ante um filme hollywoodiano: têm tanta ansiedade pelo fim, que acham que o fim é todo. O final sozinho não é um final, precisa do desenvolvimento, da ansiedade da qual é o final. Se uma mulher dizer: ``me corria um homem com uma faca'' e o psicólogo interpreta logo: ``o homem é o seu pai e a faca o pênis'', dificilmente esteja prestando algum serviço para seu paciente. Tem que ler Freud não olhando para a teoria que ele esta expondo, mas vendo como ele interpreta. Ver como Freud descreve os sentimentos: ``um pavor desmedido'', ``um desejo contraditório'', ``uma alegria apática''. Muitos psicólogos não vão ao detalhe do sentimento porque eles próprios não sentem com detalhe. O psicólogo não pode ser menos sensível que o paciente.

- Eu não tinha pensado nisso, pode ser. (Mas ele não está falando do meu psicólogo, pois nem conhece ele.) Que pena que você não quer interpretar sonhos de amigos, pois eu gostaria que interprete o meu. Mas fique tranqüilo, vou respeitar sua posição.

- Outra maneira de ver a coisa é que o importante num sonho quase sempre é um detalhe. Sem sensibilidade esse detalhe passa desapercebido. Aliás, se podermos falar de intenção do sonho, essa intenção é que o detalhe passe desapercebido. Se o paciente sabe psicanálise tem um outro motivo: falar para a pessoa certa, não revelar segredos para aqueles que só vão criar confusão. Nem todo o que um paciente oculta do psicólogo é por causa da malvada repressão.


Terminou o encontro e ela ficou pensando. Um detalhe. O detalhe que chamava a atenção no seu sonho era a iluminação da habitação. A luz vinha da janela da direita e dava um clima dramático à situação. Mas, que significado pode ter a iluminação? Seria que ela estava ocultando o essencial a seu psicólogo não pela ``malvada repressão'', mas para que aquele não entrasse no seu inconsciente como um elefante numa loja de louças? Mas o seu psicólogo é um bom psicólogo, um lacaniano paulistano. Não é que ele não seja sensível, é só sua postura de psicólogo. Continuou pensando:

- (Também eu não sei ao certo se o papel da sensibilidade é tão importante num psicólogo. O homem seu pai, e a faca o pênis dele. Não, meu psicólogo não vai ser tão burro para dizer: ``Olha, o homem que entra pela porta é o seu pai, e o revolver o pênis dele''. Claro que isso não explica nada. Bom, explica porque eu acordei tranqüila e contenta. Detalhes nos sentimentos? Como se tiver realizado um antigo desejo. Vem? O desejo está presente. Sim, claro, sempre esta presente.)


Por fim chegou o dia da próxima sessão. Ela esperava ansiosa pela interpretação do seu sonho. O primeiro que ela fez foi perguntar. Ele respondeu:

- Um sonho deve ser interpretado em contexto. Não é como um texto sagrado que tem normas absolutas para sua interpretação.

- Mas Freud falou que sonho expressa desejo.

- Que desejo você vê se expressar no seu sonho?

- Não sei, para mim está confuso.

- Mas no sonho você morre. Você quer morrer?

- Não, não, eu não quero morrer. Eu tenho esperança de que alguma coisa de maravilhosa vai acontecer logo na minha vida.

- Fala como se tivesse conhecido alguém.

- Sim, conheci um rapaz bem interessante, mas não é isso, não. E um sentimento de realização pessoal. Mas, o que me importa é a interpretação do sonho.

- Você fala do sonho e fala de desejo.

- Freud fala de desejo.

- Sim, mas você trouxe o desejo até aqui.

- Sim, eu falei do desejo.

- Mas você fala que não quer morrer e o seu sonho mostra você morrendo. Portanto, a morte do sonho representa uma outra coisa.

- Representar?

- Não. Representa. A sua morte no sonho representa alguma outra coisa.

- Não, não, eu estou representando minha morte. Não, o sonho representa minha morte. Estou confundida. Como diz?

- Fique tranqüila, sua confusão mostra que estamos no caminho certo. Eu disse que sua morte no sonho representa alguma outra coisa.

- Uma relação sexual. Eros e Thánatos. O meu desejo oculto de ter uma relação sexual com meu pai, toma a forma de ele me matando. (Página 475, tombo 4, Obras Completas de Freud. E para isso lhe pago?)

- E isso explica também o medo.

- (O medo de que o elefante entre na loja de louças.) Mas o meu pai não se parece a Stallone.

- É a imagem infantil do pai grande e forte.

- Ah ... (Será?)

A sessão continuou com outras páginas de Freud e terminou na paz dos honorários. E como a vida é muitas vezes uma sucessão de encontros e desencontros, dias depois da sessão de psicanálise aconteceu um outro encontro.


- O seu psicólogo deu uma interpretação surpreendente de seu sonho. Foi?

- Não seja irônico, por favor, que para mim é coisa séria.

- Perdão. Não quis magoá-la.

- Para mim a interpretação desse sonho é fundamental.

- Como a interpretação? Que raro! Você fala de interpretação de uma maneira esquizofrênica. Por um lado com uma ênfase e um sentimento de paixão difíceis de compreender. Por outro lado como se a interpretação que está procurando fosse um jogo matemático, uma coisa lógica e fria. Esqueça da interpretação e pense no seu sonho de uma outra maneira. Como os antigos, por exemplo.

- Como se meu sonho está mostrando meu futuro. Você fala sério?

- Falo. Se lembra do alpinista de Freud que sonhava que caia da montanha? Ele sonhou seu futuro. As vezes, o inconsciente sabe mais do futuro que a consciência.

- (Mas, se eu desejar minha própria morte, por que acordei tão feliz?) Então agora não entendo.

- O mais importante de um sonho nunca é o primeiro que vê a pessoa que o teve. Pode até estar explícito, mas não vai ser o primeiro que vê. Seu psicólogo não falou nisso?

- Parece que você não gosta do meu psicólogo, mas ele tem boa fama.

- Mas a fama é a opinião dos outros. Você que acha?

- Eu acho ele bom. Só que parece não ter cultura geral. Não conhecia a Stallone.

- Mas você gosta dos filmes de Stallone?

- Nem tanto. Mas também não sabia que era Fellini.

- Bom, ai a coisa complica.

- É mesmo?

- Sim, porque existe uma imagem coletiva, um sentimento do que é Fellini. Se seu psicólogo não sabe quem é Fellini o paciente vai quer dar uma idéia ``objetiva'' de Fellini, ou seja, essa imagem coletiva, em vez de expressar o seu sentimento. Então o psicólogo, que não conhece o sentimento geral, deve diferenciar o sentimento particular do paciente. As vezes, o que já é difícil torna-se impossível. Eu já teve esse problema na minha própria terapia. Uma vez comecei a falar de Safo e minha psicóloga não sabia que foi Safo. Perdeu uma porta aberta, mas enganosa, para o tema da homossexualidade.

Ela ironizou com um leve sorriso:

- Mas, você gosta da poesia lésbica.

- Tanto como para fazer o esforço de aprender eólio.

- Os ventos trazem lembranças.

- Quando falam do ventos da antigüidade, eu me lembro do Bóreas.

- Ah, se eu for sua psicóloga, diria que no seu aprendizado do eólio está presente o seu desejo de raptar sua mãe quando ela era donzela.

- Mas todos os ventos frios do Norte raptam donzelas.

Os dois riram das ironias quase ininteligíveis. Ela continuou:

- Passando da ironia para a fofoca. Você que leu Safo em eólio, acha que ela era homossexual?

- Eu acho que não. Acho que os fofoqueiros da antigüidade injustiçaram ela com uma difamação, tal vez por inveja.

- E isso sim que tem que ver com a sua mãe.

- Tem, com certeza, tem.

- Então, você percebeu? Começamos falando de romances modernos e psicanálise e agora estamos chegando aos temas verdadeiramente importantes: os clássicos, a poesia ...

- E o cinema.

O rosto de ela mudou. Ele falou:

- Por que você ficou tão séria? Aconteceu alguma coisa?

- Não, não. Eu gosto tanto do teatro e do cinema. Participo de um grupo de teatro experimental, mas por vergonha ou por medo da incompreensão não falo para quase ninguém. Mas é como se você tivesse adivinhado.

- Não adivinhei, não. O sentimento com que você falou do cinema. Parecia machucada pelo fato de seu psicólogo não saber que é Fellini. Vai participar de alguma peça?

- Não, mas eu fiz um teste. Não para uma peça, para um filme.

- Um filme?

- Sim. Glaúber Rocha vai rodar uma adaptação da peça Melissa, de Augusto Boal.

- Eu estou sabendo. Já li na Folha. Eu já assisti Melissa no Rio, com direção do próprio Boal.

- Eu nunca assisti a peça, mas li o livro uma dúzia de vezes.

- Um teste para que papel?

Ela ficou com vergonha, e logo falou:

- O papel de Melissa.

- Melissa? Tomara que consiga esse papel. Parece uma coisa muito importante para você. E eu tenho a sensação de que seria uma Melissa antológica. Mas, que personagem complicada! É como nas obras de Shakespeare, a gente sabe o final desde o princípio, mas, mesmo assim, o final surpreende. Quando vai ficar sabendo se foi a escolhida?

- Amanhã.

Ficaram se olhando um para outro em silêncio.


Momentos antes de sua sessão de psicanálise. O telefone tocou. Deram a notícia: ela era a escolhida para Melissa. Ela dava um passo para um lado, um outro para outro lado, queria pular, queria dançar, queria gritar, queria chorar. Aos poucos foi se acalmando. Lembrou-se da sua terapia. Ai veio um sentimento de raiva e pensou:

- (Mas que burro, que burro, que burro que é o meu psicólogo. Eu tenho que parar de jogar fora tempo e dinheiro e dar bola somente às pressões das pessoas que admiro.)

Ela entrou no consultório do psicólogo, olhou aos olhos dele, e lhe diz:

- Você é um burro, e eu não vou vir mais.

E saiu batendo a porta. Chegou na sua casa e ligou para marcar um encontro com ele. Falou da novidade.


- Parabéns. Você conseguiu. Eu sinto que vai fazer uma Melissa memorável.

- Larguei de meu psicólogo. Quando uma pessoa tem algum desejo muito intenso, parece que tem a necessidade de ocultá-lo para que se realizar.

- Ou pelo menos não contar para os psicólogos burros.

- Você também acha? Eu gosto tanto de você ...


Começou a filmagem. Glaúber surpreendeu todo mundo quando disse que o primeiro a filmar ia ser o final, a última cena. Ascenderam os refletores e Glaúber deu a ordem de rodar.

Ficou na cama de costas à porta, como está na peça. O grandão ficou sabendo da traição de Melissa. Entrou violentamente no quarto e matou Melissa.

Ela não podia acreditar tanta alegria. Seu sonho tornava-se realidade.

(c) 1998 Carlos González. Escreva para mim.