Era uma vez... 


@ A SENDA DE NATAL

lualuaEstamos no mês de Dezembro vivendo uma egrégora de milhares de anos, mantida por vários povos, religiões, e grupos místicos de todo o mundo.
Cada um com o seu motivo e a sua simbologia própria, mas com uma base única de valorizar a fraternidade, o amor e o respeito à natureza.

Vamos iniciar a nossa Senda Mágica, dirigindo a nossa atenção para a cidade de Paulínia, no interior do estado de São Paulo, e agora para uma casa em particular onde moram: Felipe, seus pais Wilson e Susana, e suas irmãs: Juliana e Josi. Uma família onde prevalece o equilíbrio e o carinho.
Estamos na manhã do dia 11 de Dezembro...
Felipe acordou cedo e para variar... com muita fome. Enquanto sua mãe preparava um delicioso café da manhã, ele foi até a sala, e se sentou preguiçosamente no sofá, para poder admirar a Árvore de Natal que eles haviam montado.
A família se reuniu há 5 noites atrás, como faziam sempre, e cada um de alguma forma participou da decoração de Natal da casa.
O importante não é o luxo e nem a quantidade dos enfeites, mas o carinho com que eles são utilizados para simbolizar um dos momentos mais bonitos do ano.

Felipe sempre foi fascinado pelo Natal, mas não somente pelas decorações e comidas deliciosas, mas também pela oportunidade em ver mais facilmente, a fraternidade, a união, e o amor nos sentimentos e atitudes das pessoas.

Felipe estava pensativo, quando...Hummm..., levantou correndo pois já sentiu o aroma de pão com queijo feito na sanduicheira. O café da manhã estava delicioso e é claro, com um ingrediente muito especial: o amor de mãe.
Como ainda era quinta-feira, ele foi para o seu trabalho, mas já tinha deixado marcado para ir de noite, com suas irmãs, num Shopping das proximidades...
O motivo principal era assistir a estréia do filme: "A Profecia Celestina", cuja sinopse parecia muito interessante, e também para conhecer a decoração de Natal.

- Nossa, vejam só isso! - disse Felipe impressionado quando chegou no Shopping.
A decoração desse ano envolvia cada visitante, num ambiente criado como se fosse um bosque com árvores.

Alguns caminhos foram decorados com personagens e cenas, que aos poucos iam encantando o coração e a alma. Uma suave melodia natalina tocando ao fundo, com o som de harpa se destacando, e até mesmo o perfume suave dos cedros e pinheiros, emanava em alguns pontos, como se realmente estivéssemos em um ambiente natural e verdadeiro.
Em um desses caminhos, o único com um chão semelhante a neve, Felipe encontrou uma fila com diversas crianças, algumas acompanhadas de seus pais, que esperavam ansiosas pela oportunidade de conversarem com o Papai Noel. *Logo à frente, em um ponto onde os visitantes já estavam isolados do mundo externo e envoltos em magia e beleza, aparecia uma cabana simples, mas que atraia todos os olhares de forma hipnotizante. Com paredes de tijolos aparentes e telhado coberto de neve, a Casa do Papai Noel tinha uma grande porta de folha dupla e janelas que deixava todo o interior da cabana à mostra. Do assoalho de madeira rústica, surgiam móveis de aparência antiga com entalhes precisos e vistosos. Aqui e ali, archotes davam ao recinto uma aura sombria, mas acolhedora e instigante. Ao fundo, uma lareira flamejava com tamanha realidade que só a ausência de fumaça denunciava que se tratava de uma peça decorativa.
No canto esquerdo havia uma mesa com pilhas e mais pilhas de cartinhas, organizadas em uma desorganização frenética, se é que isso fosse possível.
Ao centro, sobre um tapete já puído - o que só deixava a cena ainda mais real - estava uma grande e aconchegante poltrona vermelha, de espaldar alto e braços largos. Toda a cena, por si só, já justificaria as exclamações de "oh!", "nossa!" e "que lindo!" soltadas logo a primeira vista, mas o Papai Noel que ali se sentava era, por completo, real e verdadeiro. Era autêntico!

Felipe parou perto da cabana, e ficou observando quase de forma hipnótica toda aquela magia do olhar das crianças, enquanto cochichavam com o Papai Noel.
- Vamos Felipe?! - disse sua irmã Josi.
- Ah! - Eu já vou... - disse enquanto olhava rapidamente para elas! - Podem ir que eu já vou!
Elas continuaram caminhando para terminar de ver as decorações de Natal..., mas Felipe estava tão fascinado com aquele momento que quando percebeu, ele já estava na fila com as crianças, para poder falar com o Papai Noel.

Na cabana entrava somente uma criança por vez, acompanhada ou não, para poder preservar o encanto exclusivo de cada um.
Felipe foi ficando ansioso... Alguns o olhavam sem compreender bem o que ele estava fazendo ali, e outros achavam que ele estava acompanhando alguma criancinha, mas quando chegou a sua vez, ele entrou sozinho na cabana e a atenção de todos se voltou para aquele momento incomum.
O Papai Noel ficou surpreso em ver um jovem de uns vinte e poucos anos, na sua frente e sozinho.
- Essa é realmente uma surpresa! - Qual o seu nome?
- Felipe!
- Sabe Felipe, eu sempre pergunto para cada criança que vem aqui, o que gostaria de ganhar de presente de Natal, mas depois de muitos anos..., eu sinto que estou ganhando um presente, vendo você aqui. - Você ainda preserva o amor e a magia no coração, que alguns às vezes esquecem que independe da idade. - Parabéns mesmo! - disse Papai Noel muito emocionado, enquanto se levantava lentamente de sua poltrona, para poder abraçá-lo.

Felipe nem sabia o que dizer... Desde pequeno ele sempre foi muito espontâneo na sua forma de expressar seus sentimentos e nunca se importou com o que os outros poderiam estar comentando ou pensando.
Ele era sempre, ele!

Papai Noel, pegou seu saco de presentes, onde havia muitas balas e pirulitos para as crianças, e colocou a mão dentro dele para pegar um dos doces para o Felipe, mas ficou surpreso quando percebeu que havia um pequeno pacote lá dentro.
O presente estava embrulhado com um bonito papel de presente decorado com motivos natalinos. Pequenas estrelas reluziam com a incidência da luz. Um lindo laço vermelho e verde completava a magia do presente, e um pequenino cartão com um nome: Felipe.

Nem tenho como dizer quem ficou mais surpreso com o presente, pois ambos ficaram sem palavras. Felipe escondeu rapidamente o presente na sua jaqueta, preocupado que alguma criança pudesse ver e também querer um, ao invés dos doces.
- Muito obrigado Papai Noel! - disse Felipe bem baixinho, enquanto se despedia.
Papai Noel ainda seguiu Felipe com os olhos enquanto ele se afastava, e ficou pensando...
- O que haveria naquela caixa...

Felipe correu para encontrar suas irmãs e contar o que tinha acontecido.
Elas acharam o máximo que ele tivesse ficado na fila, mas o que mais impressionou foi quando ele mostrou o presente.
- Mas você ainda nem abriu? - Abra logo! - disseram elas.

Os três se sentaram em um banco e o Felipe fez um suspense para abrir a caixa, do tipo "abro' ou "não abro", enquanto suas irmãs deliravam de curiosidade.
Quando ele decidiu abrir, encontrou uma caixa de madeira de cedro, com um desenho em relevo na tampa. Dentro dela havia duas peças também de madeira, com um formato geométrico, e um recorte em formato espiral partindo do centro.

- Nossa, o que é isso? - perguntou sua irmã Josi.
Felipe olhava..., e olhava, mas não conseguia imaginar o que seriam aquelas peças.

Mais tarde, quando chegou em casa, telefonou ansioso para contas a novidade para o Ricardo. Eles se conheciam há alguns anos e eram grandes amigos. Ricardo morava na cidade de Campinas, e como era bem próximo, depois de alguns minutos já estava lá...
Ele já conhecia bem o Felipe e a notícia que ele havia ficado na fila, nem foi uma surpresa, mas o presente com certeza sim.
Passaram horas no quarto de Felipe, mas não conseguiram desvendar o mistério.
As peças nem se encaixavam entre si, e não havia nada escrito na caixa que pudesse ajudá-los.
Ricardo foi embora já bem tarde, e Felipe ainda ficou um tempo observando a caixa.
No final deixou-a bem ao lado de sua cama. Apagou a luz, e antes de dormir, percebeu uma pequena luminosidade escapando de dentro da caixa.
Quando ele a abriu, viu uma escrita fosforescente na parte interna da tampa onde reluziam as seguintes palavras:

Um símbolo para orientar,
O caminho a seguir.
Formas que vão se transformar,
Até o onze surgir.

Felipe acordou todos, para mostrar o que ele havia descoberto! Foi uma cena incrível ver a família inteira, no quarto dele, no escuro, e lendo o verso misterioso.

No dia seguinte pela manhã, ele chamou novamente o Ricardo que veio logo para ver a grande descoberta, mas..., mesmo com o quarto escuro, a escrita não aparecia.
- Ah, será que só aparece de noite? - disse Felipe desapontado.
- Tudo bem amigo, eu venho de noite... He! He! He! - Mas você anotou o que estava escrito, né?
- Sim, está aqui!
Ricardo leu, mas também não fazia nenhum sentido.
Enquanto isso Felipe estava com uma das peças na mão e disse com um olhar desconfiado:
- Ricardo, hoje eu estava olhando essas peças e pode parecer estranho, mas eu acho que elas estão diferentes.
- Como assim? - disse ele pegando uma delas.
- Não sei bem... Quando eu ganhei a caixa, não cheguei a contar os lados, mas parece que estão diferentes.

- Humm... também não reparei, mas vamos contar agora para ficarmos atentos.
Felipe contou os lados de uma delas enquanto o Ricardo contava da outra, e no final, cada peça tinha 7 lados.
- Pronto! - agora se essas peças espertinhas resolverem mudar, nós saberemos - riu Felipe.

Ricardo voltou a pegar a caixa e estava muito intrigado com o desenho na tampa.
Ele parecia lembrar algo que ele conhecia, mas ainda não sabia o que era...
Pensou, pensou..., e de repente...
- Felipe! - eu sei o que é esse desenho da tampa. - Venha comigo!
Correram até a casa do Ricardo, que foi direto para o seu quarto, procurar algumas fotos. Depois de quase uma hora, ele encontrou o que queria...
- Eu sabia! - Está aqui! - disse ele animado ao ver uma foto de uma montanha na cidade de Monte Verde.
Os olhos do Felipe brilharam, pois realmente o desenho da caixa era idêntico à fotografia.
Nesse momento Felipe pegou uma das peça e enquanto observava, engoliu em seco, dizendo:
- Amigo, conte! - disse ele com um olhar assustado, enquanto entregava a peça.
Ricardo pegou-a, apreensivo e contou lentamente...
- 1,2,3..., 7 e... Oito?! - Nossa, há um lado a mais!
Havia muito mais mistérios do que descobertas, mas pelo menos agora eles tinham um lugar para começar:
"A Montanha em Monte Verde".
Começaram a planejar uma viagem para lá, e como os dois gostavam muito de acampar, foram se preparando com barraca, mochilas e tudo mais...
O objetivo principal era dormir uma noite na montanha e descobrir de alguma forma, que nem eles mesmos sabiam, o segredo daquela caixa e seu conteúdo misterioso.

Como eles trabalhavam, só conseguiram marcar para viajar no dia 23 de Dezembro pela manhã, com a intenção de somente para passar uma noite, e regressar para a Ceia de Natal na companhia de seus familiares.
Ambos tinham famílias que respeitavam muito a vontade e a liberdade de cada um, e incentivaram para que eles fossem nessa jornada.

Ricardo se ofereceu para ir com seu carro, e eles saíram cedo.
Chegaram em Monte Verde perto do meio dia, estava um dia de sol, mas com o habitual vento frio das montanhas.
Foram almoçar em um restaurante local, e o Ricardo sugeriu um delicioso prato de Truta assada com amêndoas na manteiga, arroz e batatas fritas, mas o Felipe estava com tanta fome, que não se animou muito e preferiu pedir algo um pouco mais forte, como uma Lasanha Quatro Queijos.

Ficaram um tempo andando pela rua principal da cidade, e no meio da tarde, subiram com o carro até um ponto da estrada onde se iniciava a trilha para as montanhas. Suas mochilas estavam muito pesadas, mesmo com o básico para uma só noite.

Eram aproximadamente umas 4 horas de caminhada, considerando que eles estavam carregados. Às vezes paravam um pouco para revezar quem levava a barraca, ou para tomar um pouco de água, mas a vontade e a determinação de descobrirem o mistério daquela caixa os fariam caminhar até o final do mundo se fosse preciso.
Eles ficavam se imaginando como os próprios Frodo e o Sam, vivendo uma aventura em dos livros do Senhor dos Anéis.

- E aí Ricardo?! - já estamos chegando?
- Hummm... Acho que agora falta pouco. - Só mais essa subida e estamos quase lá.
- Ainda bem! - Essas mochilas parecem estar ficando mais pesadas a cada passo... riu Felipe. - Acho que tem alguém colocando pedras nelas...
Andaram mais alguns minutos e finalmente chegaram a uma clareira circundada por grandes pedras. Esse era o local que eles pretendiam acampar, pois apesar da altitude de 2080 metros, ficariam protegidos dos fortes ventos.
- Ahhhhhhh..... Finalmente chegamos! - disseram eles.
Livraram-se das pesadas mochilas e ficaram ali descansando um pouco...O cansaço era tanto que nem dava para falar!

A montanha que eles procuravam ficava há pouco mais de dez minutos, e eles pretendiam ainda chegar até ela, mas quando olharam para o céu, viram uma grande nuvem escura se aproximando da montanha. Parecia um manto negro que se aproximava cobrindo o mundo, e ficou praticamente de noite em pouco tempo.
Eles se apressaram para montar a barraca, e por sorte era uma daquelas que se monta quase sozinha.

A chuva chegou forte, com trovões e relâmpagos, e permaneceu assim até o anoitecer.
Por sorte, os dois estavam bem tranqüilos na barraca, conversando, comendo, e é claro ansiosos por descobrirem o que os esperava.

Quando a chuva passou, já era tarde da noite e eles saíram um pouco. Caminharam com a iluminação de suas lanternas, e mesmo no escuro, conseguiram finalmente ver o contorno da montanha que os aguardava pela manhã.
O céu estava incrivelmente estrelado, sendo visíveis até mesmo as manchas esbranquiçadas da Via Láctea.
Uma sensação contemplativa e muito mágica de sentir que as estrelas os observavam! Ficaram ali em silêncio por algum tempo, e depois voltaram para a barraca, para uma boa e merecida noite de sono.

O dia amanheceu com um sol muito bonito. Ricardo acordou primeiro, e saiu da barraca. Caminhou um pouco para poder avistar o vale lá de cima, e ficou um tempo observando...
Felipe acordou e surpreendeu seu amigo que parecia estar hipnotizado.
- Bom dia Ricardo!
- Opa! Que susto Felipe - Não percebi você se aproximando.
- He! He! He! - E aí amigo, dormiu bem?
- Nossa e como dormi. - disse Ricardo parecendo um pouco preocupado.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou Felipe.
- Você não está achando nada estranho? - Olhe esse vale!

Felipe percebeu que realmente havia algo muito diferente. Eles estavam vendo até uma pequena vila, com um longo rio, onde no dia anterior só havia montanhas.
- Olhe aquela floresta! - disse Ricardo.
Árvores de um tamanho descomunal, com alguns galhos que atravessavam as nuvens mais baixas.
- Nossa, mas o que aconteceu? - disse Felipe perplexo.
- Não sei não, mas espero que pelo menos a "nossa" montanha ainda esteja lá... - riu Ricardo para encobrir a preocupação.

Eles estavam descansados e ansiosos. Desmontaram rapidamente a barraca e seguiram para seu objetivo.
- Olhe Ricardo! - A montanha continua lá!
- Bem, continua, mas ela parece um pouco mais distante agora, não é?
- Um pouco é pouco! - Ela está muito mais longe.
- Bem, já estamos aqui e não vamos desistir - disse Felipe já seguindo pela trilha.
Ricardo já tinha percorrido esse caminho algumas vezes, mas nada era como antes.
Um caminho muito amplo que seguia praticamente direto na direção da montanha. Ele era ladeado por grandes árvores, que estendiam seus galhos ocultando o sol em praticamente todo o trajeto.
Caminharam por quase uma hora, quando ouviram passos se aproximando, por entre uma vegetação densa.
Os dois pararam assustados e ficaram só aguardando...
- Nossa! - Não pensei encontrar ninguém aqui. - disse o estranho homem. - Me desculpe, eu nem me apresentei. - Meu nome é Thulon.
- "Tu", o quê? - disse Felipe.
- Thulon! - Eu sei que é um nome um pouco estranho. - disse o homem sério.
- Eu sou Felipe e esse é meu amigo Ricardo.
- Eu moro em uma cabana perto daqui. - Onde vocês estão indo?

Felipe hesitou um pouco para responder, pois teve um mau pressentimento...
- Bem, estamos indo na direção daquela montanha, disse ele apontando para o alto, onde se via uma pequena parte dela.
- Vocês estão com sorte em me encontrar, pois essa trilha que vocês estão seguindo está muito ruim. Com a chuva de ontem, uma grande árvore caiu e bloqueou tudo, mas se vierem comigo, eu lhes mostro um atalho.

Ricardo estava animado, já ajustou sua mochila.., quando Felipe observou que a sombra de Thulon não correspondia com a sua forma.
Ele sentiu medo como jamais havia sentido na sua vida, e logo se apressou para avisar seu amigo.
- Agradecemos muito, mas vamos continuar por aqui mesmo! - disse Felipe puxando o braço do Ricardo.
Thulon estranhou a atitude, mas não disse nada, e nem eles até que se distanciaram um pouco. Quando olharam para trás o estranho havia desaparecido.
Felipe então contou sobre a estranha sombra, pois até agora o Ricardo não sabia o que tinha acontecido.

Pararam para tomar água, e Felipe resolveu olhar a caixa novamente, enquanto descansava um pouco.
Quando ele abriu a caixa...
- Ricardo! - olhe isso!
As peças agora tinham 9 lados e no centro o contorno de uma borboleta.
- Nossa! - Espero que essas mudanças sejam um bom sinal! - comentou Felipe.
- Sabe Felipe, eu acho que durante o sono nós fomos transportados para uma outra dimensão ou algum universo paralelo. - disse Ricardo meio pensativo.
- E eu acho que você está vendo muitos filmes - disse Felipe enquanto ajustava as alças de sua mochila para retomar a caminhada!
Mas..., quando Ricardo olhou mais à frente...
- Bem, então me diga que existe isso no nosso mundo. - disse ele ironizando.

Quando Felipe olhou, viu uma zona escura que se estendia desde o chão até o mais alto dos céus.
- Nossa, olhe só! - Na parte escura tem até estrelas! - disse Felipe.
- Tem razão! - Parece que lá na frente já é de noite...
Felipe se aproximou do Ricardo e sussurrou:
- Amigo! - Eu acho que aquela sua conversa sobre dimensão é séria mesmo...

Caminharam um pouco mais e pararam a um passo da fronteira entre "o dia e a noite".
- Ricardo! - Olhe que estranho... - disse Felipe observando algumas borboletas, que estavam do lado do dia e quando passavam para o lado da noite se transformavam em mariposas, e quando voltavam, eram novamente borboletas.
- Nossa..., eu nem quero imaginar o que acontece com seres humanos quando passam para o outro lado.
- Talvez o desenho da borboleta nas peças da caixa fosse para nos avisar do perigo - disse Felipe.

Ao dizerem isso, um homem de grande estatura e imponente presença, apareceu bloqueando o caminho.
Ele vestia um manto longo, com uma estampa de folhas verdes sobre um fundo preto. Só era possível ver parte do seu rosto, que não estava oculta pelo capuz.
Seus olhos abriram, e ele disse com uma voz que parecia ecoar pela floresta:

Eu sou o Guardião da Floresta dos Cedros, e para passar, você deve suplicar de joelhos. - disse ele diretamente para o Felipe que se encontrava mais próximo.
- Como é que é? - Precisamos mesmo implorar de joelhos? - disse Felipe.
O guardião somente concordou com a cabeça, fechou os olhos e continuou com sua expressão de indiferença.
- E agora Felipe? - perguntou Ricardo.
- Bem, vamos lá... - disse Felipe se prostrando na frente do guardião e dizendo:
- Por favor, guardião, eu te suplico. - Nos deixe passar!
- Você era esperado, Felipe! - pode passar.

- Bem, mas espere aí... e o meu amigo?
- Somente um pode seguir a partir desse ponto. - disse o Guardião.
- Mas ele está comigo! - Não vou deixá-lo aqui sozinho. - disse Felipe inconformado.
O guardião não disse nada.
- Pode ir Felipe, depois você me conta o que aconteceu. - Eu te espero aqui do lado do dia mesmo... - riu ele.
Felipe olhou para o Ricardo, e em seguida para o guardião. Suspirou profundamente e disse com um tom firme:
- Bem, eu só vou passar se ele puder ir comigo.

O guardião olhou novamente com indiferença, mas agora com um leve sorriso:
- Que assim seja! - disse ele esvanecendo no ar, e liberando a passagem.
Mesmo assim, é claro que eles hesitaram um pouco em passar pela fronteira, mas como a vontade de passar era muito grande, eles arriscaram primeiro estendendo a mão, depois o braço, e como nada aconteceu, finalmente passaram para o lado da noite.

O chão estava coberto de neve, mas o frio do ambiente era suportável mesmo para as roupas que eles estavam usando.
Estava muito escuro, e somente o tom azulado da lua conseguia passar por entre os galhos das árvores.
Logo nos primeiros passos, bem à frente o caminho se iluminou de ambos os lados.
A princípio pareciam árvores decoradas com luzes, como vemos nas cidades, mas quando chegaram perto, perceberam que na verdade eram vaga-lumes que brilhavam de uma forma impressionante, formando uma decoração natalina natural.
As árvores convergiam para uma clareira muito mais iluminada, onde eles aos poucos avistavam uma cabana.
Quando Felipe a viu...
- Não pode ser! - disse ele surpreso.
- O que aconteceu? - perguntou Ricardo sem compreender.
Felipe correu na frente para chegar logo, e parou há poucos metros da cabana com paredes de tijolos aparentes e telhado coberto de neve.
- Não pode ser!
- Conta logo! - O que aconteceu? - disse Ricardo impaciente.
Felipe estava eufórico...
- Lembra que eu contei que recebi essa caixa do Papai Noel no shopping? - Então a cabana dele era exatamente igual a essa. Detalhe por detalhe! - Não é que parece igual, é a mesma!
- O quê...? - não pode ser a mesma! - Apesar de que nesse lugar, parece que tudo é possível.

Quando eles se aproximaram mais, a porta se abriu, e alguém que seria reconhecido por qualquer um como: "Papai Noel", veio recebê-los.
- Sejam bem-vindos meus amigos!
- Acho que estamos sonhando. - disse Ricardo bem baixinho.

Eles foram se aproximando...
- Meu nome é Veynar! - Estou muito feliz que vocês tenham chegado até aqui.

Os dois já tinham passado por tantas situações, dúvidas, mistérios, que quando viram o Papai Noel de braços abertos, se entregaram em um abraço aconchegante.
Seus corações falaram mais alto, e nenhum deles se quer pensou se ele podia ser realmente o Papai Noel... Eles tinham certeza disso!

Veynar os convidou para entrar. Uma linda lareira feita de pedras crepitava calmamente. A decoração interna era de madeira, e sua iluminação somente com velas, criava um clima muito aconchegante. No canto da sala, perto de uma janela, havia uma grande árvore de Natal com enfeites e luzes que eles nunca tinham visto. A sensação era como se eles estivessem realizando o sonho de uma vida inteira.
Os dois estavam tão emocionados que andavam lentamente pela cabana, observando cada detalhe em silêncio, com receio de quebrar o encanto daquele momento com perguntas.
Veynar se aproximou deles enquanto estavam vendo a Árvore de Natal:
- Vejo que vocês gostaram...
- É linda mesmo - disse Ricardo.
Veynar apoiou sua mão sobre o ombro de Felipe e disse:
- Então você recebeu a caixa, não é?
- Sim, está aqui! - Como você sabe dela?
Veynar deu um sorriso, que foi o bastante para responder a pergunta.
- Eu gostaria que você abrisse a caixa novamente!
Felipe estava apreensivo e quando a abriu, teve uma surpresa! - Encontrou as 2 peças, mas cada uma tinha agora 11 lados.
No centro de uma delas, havia o símbolo de um Sol com 11 raios e na outra uma Lua Crescente circundada por 11 estrelas.

- Eu espero que isso seja bom? - disse Felipe sorrindo.

Veynar não conseguia esconder seu contentamento, e se afastou um pouco deles indo na direção de uma estante entalhada em cedro.
Na prateleira central, em um lugar de grande destaque, havia uma placa incrivelmente entalhada com muitos símbolos.
Quando ele a tocou, alguns detalhes dela se iluminaram magicamente, e dentre eles, duas formas de 11 lados que pareciam exatamente igual às peças que o Felipe tinha agora.
- O que é isso? - perguntou Ricardo.
- A resposta para todo esse mistério. - disse Veynar.

Ele apoiou a placa sobre uma mesa, e pediu para o Felipe colocar as suas peças nela.
Ele colocou primeiro o símbolo do sol que se encaixou perfeitamente, mas nada aconteceu. Acho que ambos esperavam algum efeito inacreditável...
Felipe pegou a outra peça com o símbolo da lua, e antes de encaixá-la na placa, parou alguns instantes e desviando sua mão na direção do Ricardo.
- Somos amigos e não é nessa hora que eu vou me esquecer de você! - disse ele entregando a peça para o Ricardo.
Quando ele a encaixou na placa, ela ficou dividida entre o brilho do sol, e o escuro da lua. Um efeito impressionante!

Veynar parecia estar muito emocionado, talvez por saber melhor do que eles o que significava tudo isso. Suspirou profundamente e disse:

- No mundo existem muitas pessoas, cada uma delas seguindo por um caminho que escolheu para si, e sendo exatamente como gostaria de ser. - Talvez nem todos acreditem nisso, mas é a verdade. - Nossos pensamentos e atitudes criam o nosso presente e o nosso futuro.
Tenho acompanhado você Felipe por muitos anos..., muitos mais do que a sua memória consegue se lembrar. Você tem se mantido fiel ao seu coração, ao valor dos sentimentos, como a amizade que eu vejo de forma exemplar entre vocês dois, e outras qualidades raras em um ser humano.
Quando alguém como você se destaca dos demais, surge uma esperança, uma oportunidade... Então essa "Caixa de Cedro" surge e cria uma senda diferente para cada um. Somente aquele que chegar até aqui, será merecedor de uma das maiores dádivas concedidas a alguém..., e é por isso que nesse momento Felipe:
- Eu concedo a você a honra de ser um Veynar, e um dia me suceder como o Papai Noel.
- Eu? - foi a única palavra que Felipe conseguiu dizer.
- Nossa Felipe! - disse Ricardo entusiasmado.
- Muito obrigado! - Nem sei o que dizer... - disse Felipe enquanto abraçava Veynar, emocionado.
Era muito mais do que qualquer um poderia sonhar em ser um dia.
Quando passou um pouco a emoção, Felipe recuperou seu senso de humor e olhou para o Ricardo:
- Se eu vou ser o Papai Noel, você vai ser o meu primeiro duende. - Ou você achou que eu ia fazer tudo isso sozinho? - riu ele.
- Veynar! - Agora fiquei com uma dúvida... - disse Felipe. - O que aconteceria se eu tivesse encaixado ambas as peças na placa?
- Nada! - Nada mesmo! - Pois essa era a prova final, para saber se você lembraria de partilhar aquele momento com seu amigo. - Estou muito orgulhoso de vocês dois, por representarem tão bem o verdadeiro sentido de uma amizade.

Veynar pegou a placa e entregou para o Felipe:
- Ela agora é sua! - Quando você sair da cabana será concedido um presente para você e para o mundo, que nem mesmo eu sei, pois para cada um a magia é diferente.
O Ricardo abriu a porta da cabana e o Felipe saiu lentamente com a placa em suas mãos, que tremiam um pouco.
No momento que ele deu o primeiro passo para fora da cabana, as árvores se curvaram na direção dele. A clareira que antes parecia deserta e silenciosa, agora estava em festa: duendes, gnomos, fadas e outros seres elementais, que se aproximavam para cumprimentar o futuro Veynar.
Felipe e Ricardo sempre acreditaram nesses seres, mas nunca tiveram a oportunidade de ver um... É maravilhoso comprovar como o Criador, na sua infinita capacidade de criar, sempre nos surpreende.
Eles estavam vivendo um momento difícil de descrever com palavras, pois foi uma sensação além dos sentimentos e além da imaginação.
Ficaram lá por um bom tempo, mas logo chegou a hora de se despedirem, pois ainda tinham uma longa jornada de volta, até suas casas.

Ricardo foi recebido por sua esposa Rita com muitas saudades e ansiedade por saber o que tinha acontecido na jornada das montanhas. Comemoram o Natal com muita harmonia, na companhia de seu pai Rogério, e seu irmão Paulo com sua esposa Hosana.

Os pais de Felipe e suas irmãs aguardavam também ansiosos o seu regresso, e deixaram preparada uma bonita e farta "Ceia de Natal".
Todos estavam entusiasmados e orgulhosos com as novidades. Ainda mais depois de saberem que teriam um "Papai Noel" de verdade na família.

Já bem tarde da noite, Felipe foi para o seu quarto, e um pouco antes de adormecer, ele abriu mais uma vez a sua caixa, e descobriu que havia mais duas linhas reluzindo com grande intensidade:

"Muito amor e virtudes para provar

Que o Felipe é digno de ser como Veynar".

 

 

Curiosidades Mágicas:

- Este é o 11º. Conto de Natal

- O Felipe nasceu no dia 11.

- Ele ficou sabendo que seria o homenageado no dia 11/11

- Terminei de escrever o Conto no dia 11 de Dezembro

- Na numerologia, o 11 representa a data do meu nascimento.

- Além disso, me inspirei em um assunto vasto sobre o Portal 11:11

 

Gostaria de agradecer à minha esposa Rita Aubim pelo amor e incentivo para escrever esse Conto de Natal,
e ao meu amigo: Felipe Gomes Stevanato, pela amizade e espontaneidade que me motivaram a homenageá-lo neste ano.





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(Última atualização em 21/12/2008).


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by Leandro Amaral e Ricardo Namur
Ilustrações em aquarela: Sérgio Ramos