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O Mito da Caverna (diálogo entre Glauco e Sócrates)

(República, Livro VII, capitulo VII, Platão)
Retirado do livro: Metodologia científica: caderno
de textos e técnicas/ Leda Miranda Hühne
3 ed. Editora Agir, 1989.

  — E agora — disse eu — compara com a seguinte situação o estado de nossa 
alma  com  respeito  à  educação  ou  à  falta  desta. Imagina uma caverna
subterrânea  provida de  uma  vasta  entrada  aberta  para  a luz e que se 
estende  ao  largo de  toda a caverna, e uns homens que lá dentro se acham
desde a infância, acorrentados pelas pernas e pelo pescoço. Por essa razão
eles  têm  de  permanecer imóveis  e  olhar  tão só para a frente, pois as
ligaduras  não  lhes  permitem  voltar  a  cabeça. Atrás  deles, num plano
superior, arde um fogo a certa distancia, e entre o fogo e os acorrentados 
há  um  caminho  elevado,  ao  longo  do  qual faz de conta que tenha sido 
construído um pequeno muro semelhante a esses tabiques que os titeriteiros 
colocam entre si e o publico para exibir por cima deles as suas maravilhas.
  
  — Vejo daqui a cena — disse glauco.

  — Imagine,  então,  como  ao  longo desse  pequeno  muro  passam  homens
carregando  toda espécie de objetos, cuja altura ultrapassa a da parede, e
estátuas  de homens  e  figuras de  animais feitos  de pedra, de madeira e 
outros  materiais variados. Alguns desses carregadores conversam entre  si, 
outros se calam.

  — Que estranha situação descreves, e que estranhos prisioneiros!

  — Eles se parecem  conosco — disse eu. — Em  primeiro lugar, crês que os
que  estão  assim  tenham  visto  outra  coisa  de  si  mesmos ou  de seus
companheiros  senão  as  sombras  projetadas  pelo  fogo sobre a parede da
caverna que está a frente?

  — Como  seria  possível,  se  durante  toda a sua vida foram obrigados a
manter imóveis  as cabeças?

  — E dos objetos transportados, não veriam igualmente apenas as sombras?

  — Sim.

  — E  se  pudessem  falar  uns  com  os  outros, não  julgariam  estar se
referindo ao que se passava diante deles?

  — Forçosamente.
  — Supõe ainda que a prisão tivesse um eco vindo da parte da frente. Cada
vez  que falasse um dos passantes, não  creriam eles que quem falava era a
sombra que viam passar?

  — É indubitável.

  — Eles, — disse eu — só  tomariam  por  verdade  as sombras  dos objetos
fabricados.

  — Também é forçoso.

  — Examina,  agora, o  que  naturalmente  aconteceria  se os prisioneiros
fossem  libertados  de suas cadeias e curados da sua ignorância. Quando um
deles  fosse desatado obrigado a levantar-se subitamente virasse o pescoço,
caminhasse  em direção a luz, e em virtude disto sentisse dores intensas e,
com  vista  ofuscada,  não  fosse  capaz de perceber aqueles objetos cujas
sombras via anteriormente: e se alguém lhe dissesse que antes não via mais
do que sombras e agora quando se achava mais próximo da realidade e com os
olhos  voltados para objetos mais reais, goza de uma visão mais verdadeira, 
que  supões  que responderia? Imagina  ainda que se lhe fosse mostrando os 
objetos  à  medida  que  passassem e obrigando-o a nomeá-los: não crês que
ficaria  perplexo, e  o  que  antes  havia contemplado  lhe pareceria mais
verdadeiro do que os objetos que agora se lhe mostram?

  — Muito mais — disse ele.

  — E se o  obrigassem  a fixar a vista na própria luz, não lhe doeriam os
olhos e não escaparia,  voltando-se para os objetos que pode contemplar, e
que  consideraria que  eles  são realmente mais claros, do que aqueles que
lhe eram mostrados?

  — Assim é — respondeu.

  — E  se  o  levassem  dali  à   força, obrigando-o  a  galgar a áspera e
escarpada  subida, e  não  o  largassem  antes de tê-lo arrastado à luz do
próprio sol, não crês que sofreria e se irritaria, e uma vez chegado à luz
teria  os  olhos  tão ofuscado por ela que não conseguiria enxergar uma só
das coisas que agora chamamos verdadeiras?

  — Não, não seria capaz — disse ele — ao menos no primeiro momento.

  —  Precisaria  acostumar-se, creio eu, para poder chegar a ver as coisas
lá  de cima. O que veria mais facilmente seriam, antes de tudo, as sombras;
depois,  as  imagens  homens  e  outros objetos refletidos na água; e mais
tarde  os  próprios  objetos. E depois disto seria mais fácil contemplar a
lua  e  as estrelas, e veria o céu noturno muito melhor que o sol ou a sua
luz durante o dia.

  — Como não?

  — E  por  fim, creio  eu,  estaria  em condições de ver o Sol — não suas
imagens  refletidas na água nem em outro lugar estranho, mas o próprio Sol
em seu próprio domínio e tal qual é em si mesmo.

  — Necessariamente — disse ele.

  — Mas  tarde,  passaria  a   tirar   conclusões   a   respeito   do  Sol,
compreendendo que ele produz as  estações e os anos, governa toda a região 
visível  e  é,  de  certo  modo,  o  autor  de  tudo  aquilo  que eles (Os 
prisioneiros) viam.

  — É  evidente — disse — que veria primeiro o Sol e depois pensaria sobre 
ele.

  — E quando se lembrasse de sua habitação anterior, da ciência da caverna 
e  de  seus  antigos companheiros de cárcere, não crês que se consideraria
feliz por haver mudado e teria compaixão deles?

  — Com efeito.

  — E  se  entre  os  prisioneiros  vigorasse  o hábito de conferir honras,
louvores  e  recompensas àqueles que por distinguirem com maior penetração
as sombras que passavam e observassem melhor quais delas costumavam passar
antes,  depois  ou  junto  com  outras,  fossem mais capazes de profetizar,
pesas que aquele sentiria saudades de tais honras e glórias e invejaria os
que as possuíssem? Não diria ele, com Homero, que era preferível "lavrar a
terra  a  serviço  de  um  homem  sem patrimônio" ou sofrer qualquer outro
destino a viver no mundo das sombras?

  — Sim,  creio que preferiria qualquer outro destino a ter uma existência 
tão miserável.

  — Atenta agora no seguinte: se esse homem voltasse lá para baixo e fosse
colocado  no  seu lugar  de antes, não crês que seus olhos se encheriam de
trevas como os de quem deixa subitamente a luz do sol?

  — Por certo que sim.

  — E  se  tivesse  de  competir  de  novo  com  os  que   ali  permanecem
acorrentados, opinando a respeito de tais sombras, que, por não se lhe ter
ainda  acomodado a vista, enxergaria com  dificuldade (e não seria curto o 
tempo necessário para acostumar-se), não  te parece  que esse homem  faria 
papel de ridículo? Diriam os outros que ele voltara lá de cima sem olhos e
que  não valia a pena pensar sequer em semelhante escalada. E não matariam,
a  quem  tentasse  desatá-los  e  conduzi-los  para  a  luz,  se  pudessem
deitar-lhe a mão?

  — Não há dúvidas — disse ele.

  — Pois  agora,  meu  caro  Glauco, é só aplicares com toda exatidão essa
imagem  da caverna e tudo o que antes havíamos dito. A caverna subterrânea
é o mundo visível. O fogo que ilumina é a luz do Sol. O acorrentado que se
eleva  à  região  superior  e  a  contempla é a alma que se eleva ao mundo
inteligível. Ou antes já que o queres saber, é este pelo menos meu modo de
pensar,  que  só  a  divindade pode saber se é verdadeiro. Quanto a mim, a
coisa é como passo a dizer-te. Nas últimas fronteiras do mundo inteligível
está a idéia do bem,  criadora da luz e do sol no mundo visível, autora da
inteligência  e  da  Verdade  no mundo invisível e, sobre a qual, por isso
mesmo, cumpre ter os olhos levantados para agir com sabedoria nos negócios
individuais e públicos.




Página Produzida Por Ademir Aparecido da Costa
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